O Brasil ultrapassou recentemente uma marca que deveria acender um alerta vermelho em todo o ecossistema empresarial. Mais de 8 milhões de CNPJs estão negativados, acumulando um passivo superior a R$ 174 bilhões, concentrado majoritariamente em pequenas e médias empresas.
À primeira vista, muitos atribuem esse cenário à falta de crédito, aos juros elevados ou à instabilidade econômica. No entanto, depois de décadas vivendo o dia a dia do financeiro corporativo, acompanhando empresas de todos os portes, a conclusão é clara. O problema central não é a ausência de crédito. É a ausência de gestão.
O colapso empresarial começa muito antes da negativa do banco. Ele nasce silenciosamente dentro da própria empresa, nas planilhas desatualizadas, na falta de indicadores, nas decisões tomadas por intuição, no improviso que substitui o planejamento. Quando o crédito é recusado, a crise já está instalada.
Grande parte dos empreendedores ainda atua de forma reativa. Só procuram ajuda quando o caixa já está comprometido, quando impostos estão atrasados, quando fornecedores pressionam ou quando a recuperação judicial surge como último recurso.
Essa postura transforma problemas simples em catástrofes financeiras.
Primeiro surgem atrasos tributários. Depois, o capital de giro perde controle. Em seguida, aparece o crédito emergencial caro, criando um ciclo vicioso. Por fim, recursos que deveriam financiar crescimento acabam destinados a passivos. A competitividade desaparece.
Gestão financeira não é burocracia. É estratégia de sobrevivência.
Empresas consistentes tratam o financeiro como bússola. Monitoram o fluxo de caixa, projetam cenários, revisam o regime tributário, negociam antes do atraso e planejam capital de giro. O resultado é previsibilidade. E previsibilidade é poder.Quando a empresa conhece seus números, as decisões deixam de ser apostas.
Passam a ser escolhas conscientes. Reduzem riscos, melhoram margens e ganham fôlego competitivo.
A mentalidade empresarial moderna não pode mais se apoiar em achismos. Intuição sem dados é risco disfarçado. Decisões estratégicas precisam de indicadores claros, análises técnicas e métricas consistentes.
Estar negativado não significa falência inevitável. Significa que há falhas estruturais que precisam ser corrigidas. Empresas organizadas e disciplinadas conseguem reverter cenários críticos com rapidez. Já as desorganizadas reagem tarde demais.
Ao longo da minha trajetória como Diretor Financeiro da Embelleze e Presidente da CISP, acompanhando centenas de organizações, observei um padrão claro. Empresas que investem em controles gerenciais, cultura de dados e planejamento robusto desenvolvem resiliência e transformam crises em oportunidades.
O colapso financeiro não é inesperado. Ele é previsível. E tudo o que é previsível pode ser evitado.
Os milhões de CNPJs negativados representam empregos, famílias e histórias impactadas. Cada número é um negócio que poderia ter sido salvo com gestão profissional.
O futuro pertence às empresas que se preparam hoje. Prevenção ativa, execução disciplinada e crescimento com fundamentos sólidos são o caminho.
Empresas que agem antes da crise não apenas sobrevivem. Elas crescem com segurança, competem com vantagem e constroem legados duradouros.
Adolfo Pildervasser é Diretor Financeiro da Embelleze, Presidente da CISP e autor de livros sobre crédito, caixa e controle financeiro. Por meio do projeto Adolfo Financeiro, compartilha conhecimento prático para gestores que desejam crescer com segurança e inteligência financeira.