Novo protocolo internacional amplia critérios de qualidade e valoriza experiência, origem e atributos sensoriais
A avaliação de cafés especiais passou recentemente por uma mudança global com a substituição da “nota única” pelo Coffee Value Assessment (CVA). O novo modelo altera os critérios de qualidade e impacta a dinâmica de um mercado que movimenta bilhões em todo o mundo. Ainda assim, o consumo de café segue em ritmo elevado no Brasil e no exterior, reforçando a importância da bebida na economia global.
Dados da Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC) indicam que o Brasil consome cerca de 21,4 milhões de sacas por ano, com uma média de 5 kg por pessoa. No cenário internacional, a Organização Internacional do Café (ICO) estima um consumo entre 170 e 180 milhões de sacas por ano, o equivalente a mais de 2 bilhões de xícaras por dia. Esse contexto sustenta a relevância da mudança na forma de avaliação da qualidade do produto.
Por décadas, o mercado utilizou a chamada “nota única”, sistema que atribuía pontuação de 0 a 100 aos cafés especiais e influenciava diretamente preço, reputação e comercialização. O modelo passa a ser substituído pelo Coffee Value Assessment (CVA), protocolo que amplia os critérios de análise e elimina a lógica de um único indicador. Entre os parâmetros considerados estão análise física dos grãos, descrição sensorial — como aroma, acidez e corpo —, avaliação afetiva e fatores extrínsecos, como origem, sustentabilidade e histórico do produtor.
A principal mudança está na separação entre características objetivas e percepção subjetiva. Enquanto o sistema anterior concentrava esses elementos em uma única nota, o novo modelo permite leitura mais precisa e transparente da qualidade, reduzindo distorções e ampliando possibilidades de diferenciação no mercado. “O café deixou de ser apenas uma bebida do dia a dia para se tornar uma experiência. Esse novo modelo valoriza não só o sabor, mas toda a cadeia produtiva, desde o produtor até a xícara. Isso torna o mercado mais justo e abre espaço para histórias e origens ganharem protagonismo”, afirma Elói Ferreira, cofundador da Go Coffee e responsável pelo desenvolvimento de produtos da marca.
A mudança impacta diretamente a dinâmica do setor. Com a valorização de atributos como sustentabilidade, rastreabilidade e identidade sensorial, produtores passam a contar com mais ferramentas para agregar valor ao produto. Marcas e cafeterias, por sua vez, ganham novas possibilidades de posicionamento. Para o consumidor, a tendência é de uma experiência mais informada e personalizada, com acesso a informações mais detalhadas sobre o café consumido. “O consumo de café evoluiu nos últimos anos, tanto no Brasil quanto no exterior. O consumidor passou a valorizar mais a experiência, o sabor e a qualidade do produto. Essa mudança no modelo de avaliação acompanha esse movimento e contribui para alinhar o mercado às novas demandas, com mais transparência e critérios ampliados de valor”, afirma.
Para finalizar, o empresário lembra que a adoção do novo modelo ocorre de forma gradual no mercado global, com adaptação progressiva dos diferentes agentes da cadeia produtiva. “Trata-se de uma transição que ainda está em curso. O mercado passa por um processo de adaptação, e o novo sistema não está implementado de forma integral. É importante considerar esse período de ajuste para compreender os impactos reais da mudança e ir adaptando o mercado”.