O grupo se reuniu com a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) e com representantes do Sebrae para discutir os impactos positivos da redução da jornada sobre produtividade, qualidade de vida e retenção de trabalhadores.

Representantes de um grupo de Empresários pelo fim da escala de trabalho 6×1 participaram nesta quarta-feira (13) de agendas no Congresso Nacional para apresentar experiências bem sucedidas de implementação de escalas de trabalho mais humanas em diferentes setores, especialmente comércio e serviços, como bares, restaurantes e cafés.
O grupo se reuniu com a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) e com representantes do Sebrae para discutir os impactos positivos da redução da jornada sobre produtividade, qualidade de vida e retenção de trabalhadores.
A iniciativa busca mostrar que não são verdadeiras as afirmações de representantes de federações do comércio de que os pequenos e médios empresários são contra a mudança pelos supostos prejuízos.
O grupo integra a campanha “Brasil Quer Mais Tempo”, que nas últimas semanas reuniu mais de 9 mil assinaturas de empresários de todo o país em apoio ao fim da escala 6×1. A mobilização busca mostrar que parte significativa do setor empresarial brasileiro entende que condições de trabalho mais equilibradas também fortalecem os negócios.
Uma das empresárias, Isabela Raposeiras, conta que sair da escala 6×1 fez sua rede de cafés crescer 35%. “Eu sou uma empresária há 22 anos, faço escala 5×2 desde o começo, abro todos os dias”, diz. “Eu não sou a única empresa que se beneficiou financeiramente com a adoção da escala 5×2, como a gente sempre foi. A gente precisa inspirar mais empresas a fazerem esse movimento e não terem tanto medo”, comenta a empresária.
No grupo estão empresários de diferentes tamanhos, tempo de existência e realidades. Ao todo, a campanha já ultrapassou a marca de 120 mil assinaturas em defesa do fim da escala 6×1 e da construção de modelos de trabalho mais sustentáveis para trabalhadores e empresas.
Sócio-diretor da ECAR Fleet Gerenciamento de Frotas, Eduardo Bortotti Fagundes afirma que sua empresa nasceu em um modelo diferente da escala 6×1 e que os resultados são positivos. “Acreditamos muito no modelo 5×2 e também em maior flexibilidade de jornada para dar condição aos nossos colaboradores não só o descanso, mas também a possibilidade de jornadas híbridas ou em home-office, permitindo melhor aproveitamento do tempo e garantindo qualidade de vida”, destaca. Segundo ele, o fim da escala 6×1 não representa ameaça econômica para empresas que apostam em produtividade e bem-estar. “Funcionário descansado e podendo ter tempo para suas coisas pessoais retribui isso em maior produtividade e compromisso nas entregas”, ressalta Fagundes.
Veridiana Noda Bechara, proprietária da La Pet Cuisine, defende jornadas mais equilibradas como uma questão de qualidade de vida e valorização humana. “Acredito que todos os trabalhadores merecem uma vida de qualidade, incluindo no mínimo dois dias de descanso”, afirma. Já a advogada Elisabeth Stahl Ribeiro, sócia da Elisabeth Stahl Ribeiro Advocacia, também decidiu apoiar a campanha por acreditar que o trabalho não pode ocupar todo o espaço da vida das pessoas. “Mais tempo para descansar, ficar com a família e cuidar da vida pessoal é essencial. Minha secretária tem filhos e entendo que mães precisam estar com seus filhos. O trabalho é uma necessidade, mas existem outras necessidades importantes que também precisam ser consideradas”, explica.
Segundo Elisabeth, a adaptação a jornadas mais equilibradas é possível e pode trazer benefícios para empresas e trabalhadores. O escritório deixou de funcionar aos sábados em 2023 e, para ela, a mudança melhorou a dinâmica da equipe. “Nos adequamos aos dias da semana para deixar tudo certo e isso dá uma energia diferente, sabendo que teremos dois dias para descansar. Na segunda-feira chegamos com mais ânimo”, relata.
No setor de comércio, Ana Clara Guedes, sócia da Brava Doceria, afirma que jornadas mais equilibradas são fundamentais para transformar a cultura de trabalho no país. Ex-trabalhadora da escala 6×1, ela diz conhecer de perto os impactos do modelo. “A escala 6×1 é uma herança da cultura escravocrata que existe nesse país. Já trabalhei anos nesse formato e senti na pele o impacto disso”, comenta. A empresária conta que sua empresa nasceu operando em modelo 5×2, mesmo sendo uma microempresa independente. “Se eu consigo, os grandes também conseguem”, ressalta.
Segundo Ana Clara, o descanso e a qualidade de vida dos trabalhadores impactam diretamente os resultados do negócio. “As pessoas abraçam a marca e vendem mais e melhor. Aqui não existe a reclamação de falta de comprometimento”, afirma. Para ela, o fim da escala 6×1 ajuda a reduzir a rotatividade, atrair profissionais para o setor e combater a romantização da exaustão na gastronomia. “Devolve dignidade às pessoas, faz com que sejam mais felizes, saudáveis e comprometidas. No fim, traz mais vida para os trabalhadores e mais faturamento para os donos dos negócios”, conclui.
No setor de Recursos Humanos, a percepção é semelhante. Denise Faro, empreendedora da Mappa RH, relata que acompanha o debate sobre jornadas de trabalho há mais de duas décadas. “Durante toda minha jornada questionei salário, benefícios, melhores condições de trabalho e principalmente tempo de descanso. Fico muito feliz que, depois de todo esse tempo, estamos caminhando para o fim dessa escala que sacrifica tanto as pessoas”, afirma. Para Denise, a mudança pode inclusive gerar novas oportunidades para empresas e profissionais de RH. “O fim da escala 6×1 pode aumentar contratações, ampliar investimentos em eficiência operacional e fortalecer o foco em saúde mental e bem-estar dos trabalhadores”, explica.
Já no mercado de seguros, Jonathan Barbacovi, da J&G Corretora, acredita que muitos setores já estão preparados para abandonar o modelo 6×1. “Não existe impacto econômico negativo. Não adianta incluir um dia extra se a pessoa vai ficar se enrolando para matar tempo”, afirma. Segundo ele, o próprio setor já opera de maneira adaptada. “O segmento de seguros anda junto com o setor bancário. Existem plantonistas para emergências, mas o comercial não precisa estar ativo o tempo todo”, avalia.
Os depoimentos integram a mobilização da campanha “O Brasil Quer Mais Tempo”, que vem reunindo empresários favoráveis ao fim da escala 6×1 por meio da plataforma brasilquermaistempo.com.br/empresas. A iniciativa busca ampliar a participação do setor produtivo no debate público e mostrar que jornadas mais humanas podem conviver com crescimento econômico, eficiência e competitividade.
A campanha defende que o debate sobre a escala 6×1 vai além da jornada de trabalho e envolve temas como saúde mental, convivência familiar, produtividade sustentável e qualidade de vida. Para os organizadores, o apoio crescente de empresários reforça que a mudança já é vista por parte do mercado como um caminho viável e alinhado às novas relações de trabalho.
Para mais informações sobre como fazer parte da mobilização, acesse o site da campanha “O Brasil Quer Mais Tempo”: www.brasilquermaistempo.com.br.