Encerrada em Bento Gonçalves (RS), a maior edição da Wine South America reforçou o protagonismo da Serra Gaúcha no cenário vitivinícola latino-americano e consolidou a feira como um dos principais espaços de discussão sobre o futuro do setor. Ao longo do evento, mais de 400 marcas expositoras de 20 países participaram da programação, que movimentou cerca de R$ 110 milhões em negócios.
Além das rodadas comerciais e degustações, a edição deste ano teve como um dos principais temas o Acordo de Livre Comércio entre Mercosul e União Europeia, que deve impactar diretamente a competitividade do vinho brasileiro nos próximos anos.
Para Marco Aurelio da Silva, consultor de empresas em negócios internacionais e docente dos cursos de negócios e gestão da FSG – Centro Universitário da Serra Gaúcha, o debate mostrou a necessidade de o setor brasileiro avançar em estratégias para enfrentar um mercado mais aberto e competitivo.
“O acordo não coloca em dúvida a qualidade dos vinhos brasileiros, que vêm evoluindo de forma consistente e ganhando reconhecimento internacional. O ponto central é a competitividade, porque estamos falando de mercados com estruturas de custo muito diferentes”, avaliou.
A possível redução gradual das tarifas de importação para vinhos europeus esteve entre os assuntos mais debatidos durante a feira. Para especialistas do setor, a medida tende a ampliar a presença de rótulos estrangeiros no mercado brasileiro, aumentando a pressão sobre produtores nacionais, que ainda enfrentam desafios ligados à carga tributária e aos custos de produção.
“Quando se abre o mercado para produtos que já chegam com subsídios e menor carga tributária na origem, sem ajustes internos, cria-se uma assimetria. O desafio não é competir em qualidade, mas em condições de mercado”, explicou Marco Aurelio.
O tema ganhou relevância especialmente na Serra Gaúcha, principal polo produtor de vinhos do país, onde a cadeia vitivinícola tem forte impacto econômico e envolve desde pequenos produtores familiares até grandes vinícolas.
Ao mesmo tempo, a edição de 2026 da Wine South America também evidenciou oportunidades para o setor brasileiro. A presença ampliada de países como Nova Zelândia e Alemanha, além do fortalecimento da participação de produtores europeus e nacionais, reforçou a tendência de um mercado mais integrado internacionalmente.
“Eventos como a Wine South America mostram que o setor brasileiro está preparado para competir globalmente. Mas isso depende também de avanços no ambiente de negócios e da redução do chamado ‘Custo Brasil’, criando condições mais equilibradas para os produtores nacionais”, destacou o especialista.
A feira ainda reforçou o potencial de expansão do consumo de vinho no Brasil, considerado baixo em comparação a outros mercados internacionais, cenário visto pelo setor como oportunidade de crescimento tanto para marcas brasileiras quanto estrangeiras.