Podcast “Os Impossíveis” mostra como a arte ajuda crianças com câncer

Episódio aborda o uso da ilustração, de livros para colorir e de histórias reais como forma de levar conforto e ludicidade ao tratamento infantil desta doença.

 

O podcast Os Impossíveis é um espaço dedicado a conversas sobre quadrinhos, ilustração, animação, cinema e cultura geek, sempre a partir da perspectiva de quem vive o processo criativo na prática. Comandado pelo Prof. Guilherme Bevilaqua, Thiago Spyked e William Mur, o programa reúne debates informais e aprofundados sobre criação, mercado, arte, técnica e pensamento visual, recebendo artistas, autores, animadores, ilustradores e criadores que transformaram ideias improváveis em projetos reais.

Em um dos episódios, essa proposta se conecta a uma causa sensível: o papel da arte no acolhimento de crianças em tratamento contra o câncer. A conversa recebeu Fernando César de Oliveira, gestor à frente da Liga Paranaense de Combate ao Câncer, instituição responsável pelo Hospital Erasto Gaertner e pelo Hospital Erastinho, unidade dedicada ao atendimento infantil. Mais do que falar sobre gestão hospitalar, o episódio discutiu como ilustração, livros para colorir e histórias reais podem levar ludicidade, conforto emocional e momentos de fantasia a crianças e famílias que vivem uma rotina marcada por exames, medicamentos e longos períodos de acompanhamento médico.

Durante o episódio, Fernando explicou que o tratamento oncológico infantil exige uma estrutura técnica rigorosa, mas também um olhar atento para o emocional da criança. Em um momento de fragilidade, elementos lúdicos podem ajudar a transformar a relação com o ambiente hospitalar. “Quando você trabalha com o lúdico, quando trabalha com algo que possa trazer alegria naquele momento difícil, tudo isso agrega”, afirmou. A fala conduziu a conversa para uma questão central: como artistas podem contribuir de forma concreta com causas sociais ligadas à infância?

Foi nesse contexto que o Prof. Laqua apresentou o trabalho do Estúdio Laqua Social, braço social do Estúdio Laqua Parla, que reúne ilustradores voluntários para produzir materiais voltados a instituições. O primeiro projeto desenvolvido em parceria com o Hospital Erastinho resultou nos Livros Mágicos de Colorir do Erastinho, volumes 1 e 2. As publicações trazem ilustrações inspiradas em contos infantis de domínio público, além de atividades como caça-palavras, labirintos, jogos dos sete erros e exercícios de associação, pensadas para oferecer às crianças um tempo de envolvimento com personagens, cores e imaginação durante o tratamento.

A produção contou com a participação de Laqua e de cerca de 27 ilustradores voluntários, muitos deles ligados à sua comunidade artística. Segundo o professor, a adesão foi imediata, justamente porque os artistas compreenderam a dimensão da causa. O que inicialmente seria um único livro acabou se transformando em dois volumes, devido ao número de pessoas interessadas em contribuir. Toda a verba arrecadada com a venda dos livros será revertida ao hospital, ajudando a fortalecer os recursos destinados ao atendimento e às ações de cuidado.

Para o artista, a iniciativa traduz a essência da ilustração infantil. “O ilustrador infantil não desenha para colocar na parede de um museu e receber elogio. Ele desenha para ver o sorriso da criança, para ver essa criança viajando nas cores, brincando e tendo um momento de fantasia”, afirmou no podcast. A frase resume o propósito do projeto: usar a arte não apenas como expressão estética, mas como ferramenta de presença, acolhimento e transformação.

O episódio também abordou o livro Galinhos na Cabeça, inspirado na história de Maria, uma criança que enfrentou um câncer no cérebro. A obra foi escrita por sua mãe, Fábia Pinzetta, ilustrada por Laqua e viabilizada por financiamento coletivo. Parte da tiragem será destinada ao Erastinho, e o excedente das vendas também será revertido ao hospital. A experiência serviu como ponto de partida para uma nova frente social: transformar histórias reais de famílias atendidas pelo Erastinho em livros infantis ilustrados.

A proposta futura é ouvir relatos de famílias que passaram pelo tratamento, registrar essas histórias e adaptá-las para o formato de livro infantil. A partir dos textos, ilustradores voluntários serão convidados a dar vida às narrativas, formando uma coleção de obras inspiradas em experiências reais. A ideia é criar uma biblioteca sensível, capaz de ajudar outras crianças em tratamento a se identificarem com histórias de superação, cuidado e esperança.

Mais do que apresentar um projeto social, o episódio de Os Impossíveis mostra como a arte pode entrar em espaços onde a palavra, muitas vezes, não basta. Em um hospital, uma ilustração pode oferecer pausa, distração, vínculo e respiro. Ela não elimina a dor do tratamento, mas pode tornar o caminho menos solitário. Para crianças com câncer, esse momento de fantasia também é uma forma de cuidado.

 

PUBLICIDADE

VIDEOS

Relacionadas: