O debate sobre o reconhecimento do PCC e do Comando Vermelho pelos Estados Unidos como organizações terroristas vem sendo tratado por setores da esquerda sob um viés quase exclusivamente ideológico. Fala-se em ameaça à soberania nacional e até em risco de intervenção armada americana no Brasil. Mas a consequência efetiva dessa medida é outra — e muito mais real e concreta para quem mantém qualquer tipo de relação, proximidade ou tolerância com essas facções.
O principal efeito dessa classificação não seria militar, mas financeiro, investigativo e diplomático. Diferentemente das investigações comuns, apurações ligadas ao terrorismo internacional dão às autoridades americanas extrema liberdade, rapidez e efetividade para amplo rastreamento patrimonial, cooperação global de inteligência, quebra de sigilos, bloqueio de ativos, congelamento de bens e aplicação de sanções econômicas.
Na prática, partidos políticos, empresas, agentes públicos, instituições financeiras e pessoas físicas que mantenham vínculos — ainda que indiretos — com integrantes ou estruturas ligadas ao PCC e ao CV poderiam se tornar alvo de investigações internacionais amplas e agressivas. Relações antes tratadas apenas como desgaste político passariam a ter consequências reais e severas.
E talvez seja exatamente isso que provoque tanta insônia em parte do meio político. Sob essa nova ótica internacional, casos antes relativizados poderiam ganhar outra dimensão. Fatos como um Ministro de Estado reunido com lideranças do tráfico no Complexo do Alemão, registros de líderes de ONGs e esposas de faccionados em eventos oficiais em Brasília, fotos de um Presidente da República usando boné associado a facção criminosa e até declarações sobre um suposto “diálogo cabuloso” entre governo e crime organizado deixariam de ser apenas episódios políticos ou argumentos eleitorais.
Em um cenário de enquadramento dessas facções como organizações terroristas, situações assim poderão motivar investigações profundas, restrições internacionais, cancelamento de vistos, bloqueio patrimonial e compartilhamento global de inteligência financeira. O problema deixaria de ser apenas político e passaria a atingir diretamente reputações, patrimônio e relações internacionais.
O Brasil, aliás, já demonstra dificuldade histórica em reconhecer ameaças dessa natureza. Apesar de todos os horrores praticados, nosso país trata o Hezbollah prioritariamente como ator político, relativizando sua reconhecida atuação terrorista internacional. O mesmo ocorreu com as FARC, na Colômbia, frequentemente analisadas sob viés ideológico mesmo após sua transformação em uma poderosa estrutura ligada ao narcotráfico, terrorismo e domínio territorial.
Narrativas de que o reconhecimento das atividades criminosas do CV e PCC como terrorista teria como objetivo preparar ações militares em solo nacional, possuem somente um objetivo: desviar a real discussão sobre a gravidade das ações do crime organizado internacional no Brasil e no mundo, trazer uma decisão prática de cunho repressivo para o campo ideológico, como sempre, e principalmente – tentar varrer para baixo do nosso tapete toda a sujeira internacional acumulada há décadas pela omissão do Brasil.