Nos últimos tempos, as plataformas de streaming e redes sociais têm evidenciado um fenômeno crescente na música popular brasileira: a recriação de canções internacionais em português, adaptadas para o vocabulário e a realidade do público brasileiro. Tal prática se destaca em diversos gêneros, especialmente no brega, brega funk e tecnomelody, e tem impulsionado artistas como Manu Bahtidão e Andrielly Souza. No entanto, a questão que se coloca é: essa tendência está relacionada à nostalgia?
Em 2024, Manu Bahtidão lançou a música "Quem Perde é Quem Trai", uma adaptação de "The Climb", famosa na voz de Miley Cyrus. Recentemente, em 2026, Andrielly Souza se destacou com "Só no Off", uma releitura da canção "Confidence", da artista francesa Kim. Esse movimento também se reflete em projetos independentes que transformam melodias internacionais para o universo do brega e do brega funk.
Um exemplo notável dessa tendência é a nova versão de "Set Fire To The Rain", interpretada por Paula Fernandes, que conta com a aprovação de Adele. Além disso, o funk brasileiro recentemente superou grandes astros internacionais, alcançando o Top 10 Global do Spotify, o que demonstra a força do gênero no cenário musical atual.
Para Felipe Trotta, professor e mestre em Musicologia pela UFF, é necessário ter cautela ao considerar essa prática como uma novidade. Ele explica que a criação de versões nacionais de músicas estrangeiras é um fenômeno recorrente na indústria cultural, que se manifesta ao longo de décadas. "Você pega a versão e faz a versão nacionalizada. Troca a letra ou, às vezes, até nem troca, mas faz algumas intervenções", comenta o professor. Ele menciona ainda a apropriação do funk com a música "There It Is", que se transformou em "Uh Tererê", um sucesso que chegou até os estádios de futebol.
Trotta ressalta que o sucesso das releituras não está necessariamente vinculado à nostalgia, como muitos acreditam. Ele argumenta que esses movimentos são cíclicos e que a prática de adaptar músicas já existe há muito tempo. O professor cita exemplos históricos, como as versões de Bob Marley feitas por Gilberto Gil e as músicas latinas reinterpretadas por Caetano Veloso no disco "Fina Estampa", lançado na década de 1990.
Outro ponto destacado por Trotta é a dissolução das fronteiras entre música nacional e internacional. Artistas contemporâneos estão cada vez mais misturando referências de diferentes origens, criando produtos híbridos que dialogam tanto com o contexto local quanto com o global.