Sigrid Kersting alerta para impacto do “preço líquido” na competitividade de empresas do Simples com a reforma tributária

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Especialista em recuperação e reforma tributária explica que nova lógica de CBS e IBS pode tornar fornecedores do Simples menos competitivos no mercado B2B

A reforma tributária brasileira trouxe uma mudança silenciosa, mas com potencial de transformar completamente a competitividade das empresas optantes pelo Simples Nacional, especialmente nas relações entre empresas. O ponto central dessa virada está no conceito de preço líquido, que passa a ter peso decisivo nas negociações comerciais.

Segundo a tributarista e especialista em recuperação tributária Sigrid Kersting, todas as empresas do Simples Nacional passarão a ser contribuintes da CBS a partir de 2027 e do IBS a partir de 2029. Nesse novo cenário, surge uma escolha estratégica que deve ser feita com planejamento: permanecer no regime atual ou optar pelo regime regular de apuração desses tributos.

“No modelo atual do Simples, a empresa continua recolhendo pelo DAS, mas transfere ao cliente um crédito muito reduzido. Já no regime regular, ela destaca CBS e IBS na nota, aproveita créditos das suas aquisições e repassa integralmente esse crédito ao adquirente, o que muda completamente a percepção de preço”, explica Sigrid.

Na prática, essa diferença pode ser significativa. Em simulações apresentadas pela especialista, um fornecedor no Simples pode repassar cerca de R$ 0,65 de crédito ao cliente em 2027, enquanto no regime regular esse valor pode chegar a R$ 9,33. Em 2033, a diferença se amplia ainda mais, podendo alcançar R$ 2,70 contra R$ 28,00.

Essa dinâmica impacta diretamente o preço líquido, ou seja, o custo efetivo da operação para quem compra. “Com CBS e IBS por fora, o valor total da nota deixa de ser o principal fator. O que importa é quanto o cliente consegue recuperar em créditos. Isso redefine a competitividade entre fornecedores”, afirma.

De acordo com Sigrid, dois fornecedores com o mesmo preço final podem ter desempenhos completamente diferentes quando analisados sob a ótica do preço líquido. Empresas que conseguem gerar mais créditos tendem a ser mais atrativas, especialmente no mercado B2B.

A especialista destaca ainda que essa escolha não é definitiva, podendo ser feita duas vezes ao ano, mas exige atenção. “Se a empresa acumular créditos e solicitar ressarcimento, pode ficar obrigada a permanecer no regime regular até o final do ano seguinte. Por isso, a decisão precisa ser técnica e estratégica.”

Outro ponto de alerta é a complexidade da análise. Com diferentes anexos, faixas de faturamento e um período de transição que se estende até 2033, existem centenas de combinações possíveis. “Não existe resposta pronta. Cada empresa precisa de simulações específicas, considerando sua realidade operacional e o perfil dos seus clientes”, reforça.

Para Sigrid, a reforma desmonta uma ideia que por muito tempo foi considerada padrão no mercado. “O Simples Nacional sempre pareceu a escolha mais óbvia. A reforma mostrou que essa decisão precisa ser revisitada. Quem dominar essa análise vai entregar estratégia real e gerar vantagem competitiva para seus clientes.”

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