Nova norma amplia o olhar sobre riscos psicossociais, mas não menciona diretamente autismo, TDAH e outros perfis neurodivergentes; debate reacende discussão sobre inclusão real nas empresas
A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passou a exigir das empresas a identificação, avaliação e gerenciamento dos chamados riscos psicossociais no ambiente de trabalho, representa um avanço importante para a saúde ocupacional no Brasil. No entanto, especialistas apontam que a nova regra ainda deixa uma questão relevante em aberto: como ficam os trabalhadores neurodivergentes dentro dessa discussão?
A norma, que se aplica a empresas de todos os portes e segmentos, não faz menção específica a condições como Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), altas habilidades ou outras formas de neurodivergência. Ainda assim, o texto abre caminho para uma reflexão mais ampla sobre a forma como o trabalho impacta diferentes perfis de profissionais.
Segundo Thaís Rodella, especialista em comportamento humano, gestão de pessoas e medicina do estilo de vida, a ausência de uma abordagem direta não significa que o tema esteja fora da pauta.
“A nova NR-1 não cita diretamente autismo, TDAH, altas habilidades ou outras neurodivergências. Porém, quando a norma passa a exigir a identificação, avaliação e gerenciamento dos riscos psicossociais, ela abre espaço para uma discussão importante: esses fatores não impactam todas as pessoas da mesma forma”, explica.
Na prática, fatores como excesso de ruído, interrupções frequentes, mudanças constantes de prioridade, comunicação pouco clara, sobrecarga cognitiva e falta de previsibilidade podem afetar qualquer trabalhador. Mas, para profissionais neurodivergentes, essas situações tendem a gerar impactos ainda mais significativos sobre a saúde mental, a produtividade e até mesmo a permanência no emprego.
O debate ganha relevância em um momento em que muitas organizações investem em políticas de diversidade e inclusão, mas ainda enfrentam desafios para transformar a contratação em pertencimento.
“Muitas empresas estão preocupadas em contratar diversidade, mas poucas estão se perguntando se o ambiente está preparado para que essas pessoas consigam trabalhar com segurança psicológica, desenvolver seu potencial e permanecer saudáveis”, afirma Thaís.
Da inclusão formal à inclusão real
A atualização da NR-1 reforça que os riscos psicossociais devem ser considerados dentro da gestão de Segurança e Saúde no Trabalho. Entre eles estão fatores relacionados à organização do trabalho, relações interpessoais, excesso de demandas, pressão por resultados e ausência de apoio organizacional.
Especialistas defendem que a discussão não deve ficar restrita à prevenção do adoecimento mental, mas avançar para a construção de ambientes mais acessíveis sob o ponto de vista cognitivo e comportamental.
Para Thaís Rodella, existe uma conexão direta entre os novos requisitos da norma, a segurança psicológica e a diversidade neurocognitiva dentro das organizações.
“A discussão deixa de ser apenas sobre saúde mental e passa a incluir a forma como o trabalho é organizado, comunicado e vivido por diferentes perfis de profissionais”, destaca.
O que a norma ainda não responde
Embora a NR-1 represente um avanço na prevenção de fatores que contribuem para o estresse, a ansiedade e o burnout, especialistas observam que ainda faltam orientações mais específicas sobre como avaliar riscos psicossociais em grupos que possuem necessidades distintas.
Questões como adaptação de ambientes, flexibilização de processos, clareza na comunicação e redução de estímulos excessivos podem ser determinantes para profissionais neurodivergentes, mas não aparecem de forma explícita no texto da regulamentação.
Para Thaís, esse pode ser justamente o próximo passo da discussão. “A nova NR-1 não fala diretamente sobre neurodivergência, mas talvez esteja nos convidando a olhar para algo maior. O ambiente de trabalho está preparado para diferentes formas de pensar, sentir, comunicar e produzir?”
Enquanto empresas se mobilizam para atender às novas exigências da legislação, a provocação levanta um ponto central: cumprir a norma pode ser apenas o começo. O desafio agora é garantir que a gestão dos riscos psicossociais contemple, de fato, a diversidade de experiências e necessidades presentes no mercado de trabalho atual.
Fonte e foto: Assessoria de Imprensa.