Uma semana após os devastadores terremotos que atingiram a Venezuela, a contagem oficial de mortos gera grande desconfiança tanto entre a população local quanto entre especialistas. A líder interina, Delcy Rodríguez, anunciou na quinta-feira (2) que o total de mortes chega a 2.595, um aumento de 300 em relação ao dia anterior. Contudo, muitos questionam a veracidade desse número, considerando-o substancialmente inferior ao real.
Uma médica legista, que optou por permanecer anônima devido ao temor de represálias, expressou sua preocupação ao afirmar que os dados oficiais não refletem a realidade. Segundo ela, o necrotério onde atua, localizado em La Guaira, processa cerca de 400 corpos diariamente, muitos deles em estado irreconhecível devido aos severos traumas ou à decomposição avançada. A falta de espaço nos caminhões refrigerados levou a equipe a deixar os corpos expostos ao sol, o que agrava a situação.
Além da legista, figuras políticas da oposição, como María Corina Machado, acusaram o governo de minimizar a gravidade da catástrofe. Muitos venezuelanos que vivem no exterior estão criando canais informais para relatar desaparecimentos, uma vez que o governo não divulga números atualizados há dias. A recuperação de corpos ainda está em andamento, e a totalidade das vítimas pode levar tempo para ser determinada.
A legista descreveu a situação em La Guaira como indescritível, enfatizando que as famílias de baixa renda são as mais afetadas pelos tremores. Muitas delas estão recuperando os corpos de seus entes queridos, pois os serviços de emergência, como a Defesa Civil e os bombeiros, não conseguem atender a demanda.
Karelis D’Wuentt, que viajou de San Félix a Caracas em busca de seu irmão de 22 anos, relatou sua experiência angustiante. Ela identificou o irmão, que havia sido resgatado dos escombros, mas veio a falecer devido aos ferimentos. Além dele, D’Wuentt tem 12 familiares desaparecidos, sendo que três já foram encontrados mortos, incluindo seu irmão. Diante da tragédia, ela também enfrenta a incerteza sobre como arcará com os custos do funeral.
A situação em La Guaira continua a se deteriorar, e a falta de informações precisas sobre os desaparecidos e mortos é um fator que aumenta o desespero entre as famílias afetadas. Com a contagem de vítimas sendo questionada, o desafio de lidar com as consequências emocionais e logísticas da tragédia se torna ainda mais complexo.