Professor não é terapeuta: o que realmente faz diferença na inclusão escolar

Especialista em TDAH e autismo aponta práticas essenciais para um início de ano letivo mais inclusivo

Com o início do ano letivo logo nos primeiros dias de fevereiro, escolas de todo o país se preparam para receber alunos e reorganizar suas rotinas. Para crianças com TDAH e autismo, esse período é decisivo e pode definir o sucesso ou as dificuldades ao longo de todo o ano. Segundo o Professor Sampaio, especialista em inclusão e desenvolvimento infantil de crianças com TEA e TDAH, a falta de preparo ainda é um dos principais obstáculos para que a inclusão aconteça de forma efetiva.

“Existe uma expectativa equivocada de que o professor precise agir como terapeuta. Isso não é verdade. O que ele precisa é de informação, planejamento e apoio institucional para trabalhar com inclusão desde o primeiro dia de aula”, afirma Sampaio.

De acordo com o especialista, muitos desafios enfrentados por crianças neurodivergentes não estão ligados ao conteúdo pedagógico em si, mas à ausência de estratégias básicas de adaptação, organização do ambiente e comunicação clara. “Adaptar não é facilitar. É garantir que todos tenham acesso real à aprendizagem. Quando a rotina é clara e o ambiente é organizado, a criança se sente segura para aprender”, ressalta.

Para Sampaio, pequenas adaptações fazem grande diferença no dia a dia escolar. Entre as principais recomendações, estão:

  • Estabelecer uma rotina previsível, com horários claros e sequência das atividades;
  • Antecipar mudanças, avisando a turma sempre que houver alterações na programação;
  • Usar recursos visuais, como quadros de rotina, imagens e listas de tarefas;
  • Organizar o espaço da sala, evitando excesso de estímulos visuais e sonoros;
  • Definir combinados simples e objetivos, reforçados diariamente;
  • Dividir tarefas longas em etapas menores, facilitando a compreensão;
  • Oferecer instruções claras e diretas, evitando múltiplos comandos ao mesmo tempo;
  • Garantir pausas e momentos de regulação, especialmente para crianças com maior dificuldade de atenção;
  • Adaptar avaliações e atividades, sem comprometer o aprendizado;
  • Manter comunicação constante com a família e a equipe pedagógica.

Inclusão exige método, não apenas boa vontade

Embora o discurso sobre inclusão esteja cada vez mais presente nas escolas, o especialista reforça que a prática ainda depende de formação e suporte adequados. “Boa vontade é importante, mas não resolve sozinha. Inclusão exige método, planejamento e apoio ao professor. Não se trata de fazer algo extraordinário, mas de fazer o básico bem feito, desde o primeiro dia”, afirma o especialista. Sampaio também ressalta que fevereiro é um mês estratégico para observação e ajustes. “As primeiras semanas são determinantes. Quando a criança se sente acolhida logo no início, o vínculo com a escola se fortalece e o ano letivo tende a ser muito mais positivo para todos”, avalia.

Para ele, erro mais comum é esperar a crise acontecer para agir. “Inclusão não pode ser improvisada. Ela começa no planejamento do ano letivo, na rotina da sala de aula e na forma como o professor se comunica com o aluno”, explica. Sampaio reforça que não é necessário conhecimento clínico para promover inclusão, mas sim compreensão prática sobre como funcionam o TDAH e o autismo no contexto escolar. “Quando o professor entende que comportamento é comunicação, ele para de interpretar atitudes como desafio ou desinteresse. Muitas vezes, a criança só não conseguiu compreender o que era esperado”, conclui.

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