Possível investida dos EUA na Groenlândia revela limites do artigo 5º e provoca reações na aliança militar
A Otan foi criada para responder a ameaças externas, mas a crise em torno da Groenlândia expõe desafios diante de possíveis conflitos internos na aliança.
A Otan defesa ameaças externas ganha destaque após declarações do então presidente Donald Trump sobre a possível invasão da Groenlândia, território pertencente à Dinamarca e membro estratégico da aliança militar. Essa situação inédita testa os limites da organização, que foi criada em 1949 para responder a ataques provenientes de inimigos externos, conforme o artigo 5º do seu tratado.
Donald Trump provoca tensão ao anunciar interesse pela Groenlândia
Em uma declaração surpreendente feita em 11 de janeiro, Donald Trump afirmou que “de um jeito ou de outro, vamos ficar com a Groenlândia”, gerando imediata inquietação entre os países membros da Otan. A fala sugere um movimento unilateral e militar dos Estados Unidos em um território aliado, o que coloca em questão os protocolos de defesa e solidariedade da aliança.
Stephen Miller, assessor próximo a Trump, minimizou o risco de conflito armado, argumentando que nenhum aliado europeu está preparado ou disposto a combater os EUA, indicando uma possível falta de resistência política e militar contra tal ação.
Desafios do artigo 5º diante de ameaças internas à Otan
O artigo 5º da Otan estabelece que um ataque externo contra um membro é considerado uma agressão contra todos, convocando a defesa coletiva. No entanto, ele não contempla situações em que a ameaça vem de dentro da própria aliança, como um país membro mirando o território de outro. Isso cria um vácuo legal e estratégico, evidenciado pela crise em torno da Groenlândia.
Especialistas como Edward R. Arnold indicam que os Estados Unidos possuem capacidade técnica para tomar a ilha rapidamente, o que poderia desestabilizar a própria Otan e fazer com que o conflito se transforme em uma guerra interna entre aliados. A questão de quem teria a autoridade para confrontar tropas americanas é central nesse debate.
Alternativas não militares e pressões políticas entre aliados
Frente à possibilidade de um ato militar dos EUA, países europeus estudam alternativas não bélicas para reagir, como a recusa de reabastecimento de navios americanos em portos europeus, a negativa de atendimento médico a soldados estadunidenses e o aumento de custos para a permanência das tropas norte-americanas nos territórios aliados.
Marion Messmer, da Chatham House, destaca que essas medidas poderiam afetar operações militares dos EUA no Oriente Médio e no Ártico, evidenciando o poder de influência dos países europeus dentro da aliança quando desconsiderados.
Investimentos daneses reforçam a defesa da Groenlândia no Ártico
Em resposta à tensão, a Dinamarca anunciou um investimento de 88 bilhões de coroas dinamarquesas (aproximadamente R$ 77,5 bilhões) para fortalecer a defesa da Groenlândia. Esse movimento ressalta a importância estratégica do território e a preocupação com a vulnerabilidade diante de possíveis ameaças internas na Otan.
Reflexos para a Otan e o papel estratégico dos Estados Unidos
Donald Trump tem criticado historicamente os gastos dos aliados europeus em defesa, pressionando para que aumentem seu investimento para até 5% do PIB até 2035. Apesar disso, a Estratégia de Segurança Nacional dos EUA prioriza o Hemisfério Ocidental em detrimento da Europa.
Especialistas consideram que a aliança deve refletir sobre como funcionaria sem o apoio dos EUA e levar em conta o risco de os próprios americanos se tornarem adversários em cenários extremos, como o da Groenlândia. Essa situação obriga os membros europeus a ampliarem seus investimentos e estratégias de defesa autônoma, preparando-se para possíveis rupturas internas na Otan.
O cenário atual evidencia que o conceito original da Otan, focado exclusivamente em ameaças externas, deve ser revisto para contemplar a complexidade das relações internas entre seus membros e preservar a estabilidade da aliança diante de desafios inéditos.
Fonte: www.moneytimes.com.br
