Novo acordo nuclear dos EUA com Arábia Saudita visa conter influência da China

Na última terça-feira (22), Os Estados Unidos formalizaram um acordo nuclear com a Arábia Saudita, um passo considerado por analistas como uma tentativa de expandir a influência americana no Golfo Pérsico e limitar o crescimento da presença de China e Rússia na área. Vitelio Brustolin, professor da Universidade Federal Fluminense e pesquisador de Harvard, trouxe sua análise sobre o assunto.

Brustolin lembrou que o Tratado de Não Proliferação Nuclear, firmado em 1968 e em vigor desde 1970, impôs compromissos aos cinco países permanentes do Conselho de Segurança da ONU — Estados Unidos, União Soviética, França, Reino Unido e China — para reduzir seus arsenais nucleares. Em troca, os demais países signatários deveriam se abster de desenvolver armamentos atômicos. "Esse tratado prevê que os cinco países que tinham armas nucleares não criariam mais armas nucleares e as reduziriam, reduziriam os seus estoques", esclareceu o professor.

Apesar dos esforços promovidos pela iniciativa da ONU, conhecida como "Átomos pela Paz", que visa estimular o uso civil da energia nuclear, nações como Israel, Índia, Paquistão e Coreia do Norte conseguiram desenvolver capacidades nucleares, algumas vezes através de programas civis ou clandestinos. Brustolin destacou que o Irã está próximo de elevar seu nível de enriquecimento de urânio de 60% para 90%, um estágio necessário para a produção de armamentos nucleares.

Após o teste nuclear da Índia em 1974, Os Estados Unidos mudaram sua abordagem, estabelecendo uma doutrina que proibia o enriquecimento de urânio e o reprocessamento de plutônio por outros países. O país passou a oferecer urânio enriquecido a até 20%, quando necessário. Essa política se manteve durante os governos de Carter, Reagan, Bush, Clinton, Bush filho, Obama e Biden. Contudo, a administração Trump interrompeu essa norma, motivada pela crescente competição geopolítica com China e Rússia.

Atualmente, a China desempenha um papel significativo na reaproximação entre Irã e Arábia Saudita, países que historicamente mantinham relações adversas. A China, além de ser o maior comprador de petróleo saudita, pode tornar-se fornecedora de tecnologia nuclear para a Arábia Saudita, o que representa uma dependência que, Segundo Brustolin, poderia durar até 60 anos. "A leitura é de que Os Estados Unidos preferem marcar terreno, nesse momento, na Arábia Saudita", avaliou o especialista.

Brustolin também alertou que o novo acordo não segue o chamado "padrão ouro" de segurança, pois não passará pelas inspeções rigorosas da Agência Internacional de Energia Atômica. O professor enfatizou que a única garantia de que o programa nuclear saudita não será utilizado para fins militares é a própria supervisão dos Estados Unidos.

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