Tempestades intensas e frios extremos podem ser agravados pelo aquecimento global, e não sua negação
A grande tempestade de inverno que atinge os EUA é usada erroneamente para negar a crise climática, mas cientistas explicam como o aquecimento global pode intensificar eventos extremos.
A grande tempestade de inverno e a narrativa equivocada
Nos EUA, uma grande tempestade de inverno está causando temperaturas congelantes e fortes nevascas que afetam cerca de 230 milhões de pessoas. Apesar do impacto significativo, essa tempestade foi usada pelo ex-presidente Donald Trump como argumento para negar a crise climática, ao questionar “o que aconteceu com o aquecimento global?”. Tal afirmação é equivocada e desconsidera a complexidade dos fenômenos climáticos.
O papel do vórtice polar e o aquecimento do Ártico
O fenômeno que gera a tempestade é resultado do deslocamento de uma massa de ar frio do Ártico para latitudes mais baixas, causado pelo enfraquecimento ou alongamento do vórtice polar, um cinturão de ventos que geralmente mantém o ar gelado restrito ao norte. Pesquisas recentes indicam que o aquecimento global, especialmente o aquecimento acelerado na região do Ártico — até quatro vezes mais rápido que a média global —, pode estar provocando alterações no vórtice polar. A perda do gelo do mar no Ártico amplifica esse aquecimento, facilitando a intrusão de ar frio em regiões temperadas.
Eventos extremos e a ciência do clima
Embora possa parecer contraditório, o aquecimento global pode aumentar a frequência e intensidade de eventos climáticos extremos, como tempestades de inverno severas. Um único evento não pode ser utilizado para negar tendências climáticas globais, que mostram claramente o aumento das temperaturas médias em todo o planeta. Nos EUA, por exemplo, as temperaturas do inverno têm subido mais rapidamente do que as de outras estações, com uma diminuição da duração dos períodos frios e um aumento do número de dias com recordes de calor.
Impactos regionais diferenciados
Enquanto o centro e o leste dos EUA enfrentam esta grande tempestade, o oeste do país sofre com a falta de neve, afetando resorts de esqui e o abastecimento hídrico. Essa disparidade regional reforça a complexidade do sistema climático e os efeitos variados das mudanças globais. Desde 1970, o inverno tem encolhido em média seis dias, e os dias frios são menos frequentes, superados por dias mais quentes, evidenciando uma tendência que contraria a percepção de um inverno sempre mais rigoroso.
Desmistificando a narrativa contra o aquecimento global
A utilização da grande tempestade de inverno como “prova” contra o aquecimento global é uma simplificação que ignora décadas de pesquisa científica. A mudança climática não significa o fim do frio ou das nevascas, mas sim uma alteração dos padrões climáticos que podem causar eventos extremos, tanto de calor quanto de frio, em diferentes regiões. A ciência aponta que o aquecimento acelerado do Ártico influencia diretamente a dinâmica atmosférica, contribuindo para tempestades como a atual.
Este cenário reforça a importância de compreender os fenômenos climáticos dentro de um contexto amplo e científico, afastando interpretações simplistas que podem comprometer ações eficazes para mitigar os impactos da crise climática.
Fonte: www.theguardian.com
Fonte: Scott Morgan/Reuters