Especialistas analisam como recentes medidas refletem antigas práticas discriminatórias dos EUA
Política de visto de Trump suspende pedidos de 75 países sob argumentos de risco social, ecoando práticas eugênicas históricas nos EUA.
Política de visto de Trump e seu contexto histórico
No último dia 22 de janeiro, a administração Trump anunciou uma pausa nas solicitações de vistos de imigração para pessoas provenientes de 75 países, em sua maioria do Sul Global. A justificativa oficial foi o risco elevado de uso de benefícios públicos por cidadãos dessas nacionalidades, uma alegação que remete a práticas históricas de exclusão baseadas em teorias eugênicas e racistas presentes na legislação americana.
A influência da eugenia nas leis de imigração dos EUA
Desde o século XIX, os Estados Unidos adotaram regras de “encargo público” para restringir a entrada de imigrantes que pudessem representar um custo para os serviços públicos. Douglas Baynton, professor emérito da Universidade de Iowa, destaca que essas políticas tiveram início com a exclusão de pessoas consideradas “lunáticas”, “idiotas” ou com deficiências, refletindo o pensamento eugênico que via certos grupos como portadores de “defeitos” hereditários que ameaçariam a pureza da população americana.
Na década de 1920, a política imigratória passou a enfatizar a exclusão por raça e nacionalidade, associando esses fatores à presença de “defeitos” genéticos e à inferioridade. A crença era que certos grupos étnicos estavam mais propensos a transmitir desvantagens hereditárias, justificando medidas de restrição rigorosas.
Paralelos entre as medidas atuais e antigas práticas discriminatórias
A recente suspensão de vistos baseada na suposta propensão de nacionalidades a utilizarem benefícios públicos reflete o mesmo argumento econômico e social utilizado há mais de um século para barrar determinados grupos. Baynton salienta que o medo central era o contágio do “sangue americano” com genes considerados defeituosos, uma linguagem que, segundo ele, foi retomada por Trump em seus discursos.
Essas medidas encobrem a verdadeira motivação: a exclusão de pessoas percebidas como inferiores segundo critérios de deficiência, raça, classe e gênero, perpetuando um padrão histórico de desigualdade e discriminação.
Deficiência, identidade e desigualdade na imigração
O uso da deficiência como justificativa para exclusão remonta também a movimentos sociais como o anti-sufrágio feminino, que associavam mulheres a traços como emocionalidade excessiva e irracionalidade, vistas como incapacidades. Essa lógica foi expandida para outras identidades, como raça e classe, servindo para legitimar o tratamento desigual.
Baynton ressalta que a interseção entre gênero, raça e deficiência é crucial para entender as políticas restritivas. Essas categorias são frequentemente usadas como proxies para justificar exclusão, por vezes mascaradas em termos técnicos ou econômicos.
Reflexões sobre políticas imigratórias e direitos humanos
A análise histórica mostra que a política de imigração dos EUA está profundamente enraizada em ideologias que buscam controlar quem é considerado aceitável na sociedade. A atual administração resgata elementos dessa tradição, disfarçando preconceitos sob justificativas de segurança nacional e sustentabilidade econômica.
Compreender essa continuidade é fundamental para questionar e contestar políticas que reproduzem exclusão e marginalização. O desafio está em promover uma agenda imigratória que respeite a diversidade humana e os direitos fundamentais, rompendo com o legado de discriminação e eugenia que marcou a história do país.
Fonte: www.motherjones.com
Fonte: Samuel Corum/Pool/CN/ZUMA