Um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgado em julho de 2023, aponta um aumento de 79,1% nos casos de câncer entre adultos com menos de 50 anos nas últimas três décadas. Os dados foram coletados entre 1990 e 2019, revelando uma tendência preocupante na saúde pública mundial.
Entre os casos registrados, a maior parte ainda está concentrada em idosos, que representam 53% dos 20,6 milhões de diagnósticos previstos para 2024, especificamente em pessoas acima de 65 anos. O Prof. Dr. Ramon Andrade de Mello, oncologista do Centro Médico Paulista High Clinic e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia, destaca que a crescente incidência de câncer em adultos jovens não pode ser ignorada.
As causas desse aumento ainda não estão totalmente claras e podem variar conforme o tipo de tumor. A OMS sugere que o incremento nos diagnósticos de cânceres, como os de mama e tireoide, pode ser atribuído ao aumento do rastreio e ao fenômeno do sobrediagnóstico. O Dr. Ramon explica: "Quanto mais uma população é examinada, maior é a possibilidade de encontrarmos tumores que permaneceriam desconhecidos, sem causar sintomas ou representar riscos à vida do paciente. Isso pode elevar o número de diagnósticos sem, necessariamente, refletir um aumento das formas mais agressivas da doença."
Entretanto, o aumento nos casos de câncer vai além do que pode ser explicado apenas pela ampliação dos exames. Também ocorre em populações que não realizam rastreamento regular, sugerindo que fatores como obesidade, sedentarismo e alimentação inadequada podem estar contribuindo para esse cenário.
A detecção do câncer em adultos jovens apresenta desafios, pois muitos tumores não provocam sintomas nas fases iniciais, enquanto outros podem causar manifestações discretas ou inespecíficas. O especialista observa que grande parte das pessoas com menos de 50 anos não está nas faixas etárias recomendadas para rastreamento, fazendo com que muitos casos sejam investigados apenas após o surgimento de sintomas ou descobertos acidentalmente. Ele enfatiza que a ausência de sintomas não exclui a presença da doença, e quando os sinais aparecem, podem ser confundidos com condições benignas comuns nessa faixa etária.
O médico ressalta que essa tendência não implica a necessidade de realizar exames precoces para todos. O relatório da OMS defende a necessidade de fortalecer os registros de câncer para identificar quais tipos estão em ascensão, em quais grupos populacionais e quais fatores podem estar envolvidos. Essa informação poderá direcionar futuras mudanças nas recomendações de rastreamento e nas estratégias de prevenção.