Recentemente, um termo inusitado surgiu no cenário político curitibano: “vereadores federais”. Cunhado pela vereadora Lais Leão (PDT), o termo foi utilizado para criticar um grupo de parlamentares de direita da Câmara Municipal de Curitiba – Eder Borges (PL), Guilherme Kilter (Novo), Rodrigo Marcial (Novo), Olimpio Araujo (PL), Da Costa (União), João Bettega (União), Delegada Tathiana Guzella (União) e Indiara Barbosa (Novo) – que, segundo ela, estariam mais preocupados com pautas nacionais do que com as questões locais da cidade. A crítica, embora possa parecer pertinente à primeira vista, ignora a complexidade do atual momento político brasileiro e a interconexão cada vez mais evidente entre as esferas municipal e federal.
Uma Crítica Legítima, Mas Incompleta
É importante ressaltar que a crítica formulada pela vereadora Lais Leão é um direito legítimo de qualquer parlamentar em uma democracia. A liberdade de expressão e o direito de apontar inconsistências no trabalho dos colegas são pilares fundamentais do regime democrático. A vereadora, aliás, desenvolve um trabalho reconhecidamente relevante em suas pautas de urbanismo, mobilidade urbana e meio ambiente, contribuindo significativamente para a melhoria da infraestrutura e da qualidade de vida em Curitiba.
No entanto, é igualmente importante observar que a própria vereadora Lais Leão (PDT) também defende pautas ideológicas e federais alinhadas com seu espectro político. Assim como os vereadores de direita que critica, ela também se posiciona sobre questões nacionais que extrapolam o escopo estritamente municipal. A diferença reside não na existência de posicionamentos sobre temas federais, mas na natureza ideológica desses posicionamentos. Isso evidencia que o fenômeno dos “vereadores federais” não é exclusividade da direita, mas uma característica cada vez mais presente em toda a Câmara Municipal, independentemente da filiação partidária.
O Cenário Nacional que Exige Posicionamento
O Brasil atravessa um período de intensa turbulência política e institucional. A população assiste a uma série de acontecimentos que geram insegurança e desconfiança. Supostos casos de corrupção no Supremo Tribunal Federal (STF), como o escândalo do Banco Master , e decisões monocráticas controversas que, para muitos, usurpam as funções do Legislativo, têm sido pauta constante de debates. A prisão de centenas de brasileiros após os atos de 8 de janeiro de 2023, com acusações de violação de direitos humanos e falta de individualização das condutas, também é um ponto de grande preocupação para uma parcela significativa da sociedade .
Além disso, escândalos de corrupção em órgãos federais, como o esquema de fraudes no INSS, que envolve desvios bilionários e a possível participação de figuras ligadas ao alto escalão do governo , reforçam a percepção de que a corrupção é um mal endêmico que precisa ser combatido em todas as frentes. Some-se a isso uma carga tributária que, em 2025, atingiu 32,3% do PIB , e a sensação de que o cidadão comum paga uma conta alta por um Estado ineficiente e, por vezes, corrupto, se torna quase um consenso.
Nesse contexto, é natural e esperado que os eleitores cobrem de seus representantes um posicionamento firme sobre essas questões. A ideia de que um vereador deve se limitar a discutir o asfalto da rua ou a poda de uma árvore, ignorando o cenário que impacta diretamente a vida de seus eleitores, parece anacrônica. A política não é uma série de caixas isoladas; as decisões tomadas em Brasília têm reflexos diretos no dia a dia do cidadão curitibano.
A Atuação Municipal dos “Vereadores Federais”
A crítica de que os vereadores mencionados estariam negligenciando suas obrigações municipais não se sustenta quando se analisa o trabalho legislativo que eles têm desenvolvido. Embora mantenham um posicionamento firme em relação às pautas nacionais, alinhados com o pensamento de seus eleitores, eles também apresentam projetos e fiscalizam o Executivo local. A tabela abaixo resume algumas das principais contribuições desses parlamentares para a cidade de Curitiba:
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Vereador(a)
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Partido
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Foco da Atuação Municipal
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Exemplos de Projetos e Atividades
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Eder Borges
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PL
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Segurança Pública e Pautas Conservadoras
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Projeto de exame toxicológico para cargos públicos; Campanha de conscientização sobre fonoaudiologia; Presidente da Comissão de Participação Legislativa.
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Guilherme Kilter
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Novo
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Educação e Segurança
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Projeto que aumenta as punições para pichação e vandalismo; Presidente da Comissão de Educação, Turismo, Cultura, Esporte e Lazer.
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Indiara Barbosa
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Novo
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Fiscalização e Empreendedorismo
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Lei da Transparência em Obras Públicas; Lei de divulgação da lista de espera do SUS; Fiscalização de mais de R$ 1 bilhão em contratos; Segunda-secretária da CMC.
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Rodrigo Marcial
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Novo
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Desenvolvimento Econômico
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Autor do “Dossiê Moraes”; Atuação em pautas de desburocratização para empresas.
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Olimpio Araujo
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PL
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Menos Impostos e Mais Liberdade
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Defesa da redução da carga tributária municipal; Liberdade econômica para empreendedores locais; Líder do PL no Legislativo.
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Da Costa
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União
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Segurança Pública
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Atuação focada na segurança, com base em sua experiência como policial militar; Influenciador digital com 820 mil seguidores.
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João Bettega
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União
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Ordem Pública e Segurança
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Projeto de lei para evitar manifestações com nudez ou conotação sexual explícita; Criador de conteúdo político nas redes sociais; Terceiro vereador mais jovem da legislatura.
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Delegada Tathiana Guzella
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União
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Segurança Pública e Direitos Humanos
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Programa Municipal das Escolas Cívico Militares; Banco de dados de denunciações caluniosas; Defesa dos direitos dos motoristas de aplicativo e motoboys; Primeira-vice-corregedora da CMC; Mulher mais votada em 2024 com 12.515 votos.
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Como se pode observar, os vereadores acusados de “federalismo” possuem uma atuação diversificada e relevante para o município. A defesa de pautas nacionais não os impede de cumprir com suas obrigações locais. Pelo contrário, demonstra uma sintonia com o eleitorado que os elegeu, que espera de seus representantes uma voz ativa na defesa de seus valores e princípios, seja na esfera municipal ou nacional.
O Direito de Criticar e o Direito de se Posicionar
A crítica da vereadora Lais Leão aos “vereadores federais” é, portanto, um exercício legítimo da democracia. Assim como ela tem o direito de apontar o que considera inconsistências no trabalho de seus colegas, eles também têm o direito de se posicionar sobre questões que afetam seus eleitores, independentemente de sua esfera de atuação. O que não se pode fazer é aplicar critérios diferentes para avaliações políticas baseadas em filiação partidária.
Se a defesa de pautas federais é criticável quando feita por vereadores de direita, também deve sê-lo quando realizada por vereadores de esquerda ou centro. A consistência argumentativa exige que os mesmos princípios sejam aplicados a todos os parlamentares, sem exceção. Caso contrário, a crítica perde sua legitimidade e se transforma em mero oportunismo político.
O Dever de Representar em um Mundo Conectado
Em um país onde o Congresso Nacional, muitas vezes, parece distante das preocupações do cidadão comum, é compreensível que a população busque em seus representantes mais próximos – os vereadores – um eco para suas angústias. A ideia de que um vereador deve se calar diante de possíveis injustiças ou desmandos em nível federal é, no mínimo, ingênua. O vereador é o político mais próximo do povo e, como tal, tem o dever de ser o porta-voz de suas aflições.
O posicionamento dos vereadores de direita de Curitiba sobre temas nacionais não é, portanto, uma tentativa de “usar a Câmara como palco para 2026”, como sugeriu a vereadora Lais Leão. É, antes de tudo, o cumprimento de um dever de representação. Em um mundo cada vez mais conectado, onde as informações circulam em tempo real e as decisões políticas têm impacto global, a separação estanque entre o local e o nacional se torna cada vez mais artificial.
Conclusão: Uma Política Plural e Representativa
A alcunha de “vereadores federais”, embora criada com um intuito pejorativo, pode, na verdade, revelar uma nova faceta da política contemporânea. Uma política onde o representante, para ser completo, precisa ter um olhar que vai além das fronteiras de seu município, compreendendo que os grandes desafios do Brasil são, em última instância, os desafios de todos os brasileiros, inclusive os curitibanos.
E nesse contexto, é fundamental que todos os vereadores – de qualquer espectro político – tenham a liberdade de se posicionar sobre as questões que afetam seus eleitores, sem que isso signifique negligência em relação às responsabilidades locais. A democracia é feita de críticas, posicionamentos e debates. E é justamente nessa pluralidade que ela se fortalece.
Referências
Sobre o autor: Thiago Branco é CEO e proprietário do portal Folha de Curitiba, além de Head de Estratégias de Tráfego e Comercial. Especialista em marketing político, gestão de crise, posicionamento e campanhas de tráfego pago para mandatos, pré-candidatos e partidos, atua na análise profunda de dados para criar estratégias que geram engajamento, autoridade e votos. Para consultorias, projetos de comunicação política ou gestão de tráfego, entre em contato pelo WhatsApp (41) 99149 – 7821