Como a fala de Trump sobre a Groenlândia reflete a história colonial

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Uma análise sobre a visão colonial de terras habitadas e a desconexão com as práticas indígenas.

A declaração de Trump sobre a Groenlândia ressoa com práticas coloniais que desconsideram a presença indígena.

A declaração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chamando a Groenlândia de “um pedaço de gelo” durante seu discurso no Fórum Econômico Mundial em Davos, provoca reflexões sobre a forma como as potências coloniais ao longo da história têm tratado terras habitadas. Essa visão simplista ignora a rica história de habitação e gestão dos povos indígenas, refletindo um padrão em que territórios são classificados como “não utilizados” ou “desabitados”.

A visão colonial sobre a terra

Historicamente, os povos indígenas da Groenlândia, principalmente os de origem Inuit, ocupam a região há quase cinco milênios, sustentando uma relação profunda com a terra baseada na coletividade e no cuidado. Contrapõe-se a isso a perspectiva ocidental de propriedade, que tende a ver a terra como um bem individualizável e negociável. Essa dicotomia revela não apenas uma diferença de entendimento sobre o uso da terra, mas também um desdém pela riqueza cultural e ecológica que os povos indígenas representam.

A forma como os poderes coloniais descreveram e trataram a terra muitas vezes desconsiderou as práticas e os sistemas de gestão que já estavam em vigor. Por exemplo, um estudo de 2023 na Australian Historical Studies revela que, no século XVIII, a nomenclatura “desabitado” era usada por autoridades britânicas para descrever terras sem um governo “civilizado”, desconsiderando a presença de comunidades autônomas que podiam estar vivendo, pescando e cultivando por milênios. Essa ideia de terras “não utilizadas” serviu para justificar a colonização e a apropriação de espaços que já eram cuidados por seus habitantes.

Exemplos históricos de desapropriação

Um exemplo claro é a compra do Alasca em 1867, quando os Estados Unidos adquiriram a região do Império Russo por 7,2 milhões de dólares. Apesar da sua importância econômica futura, o acordo foi feito sem consulta aos Nativos do Alasca, que habitavam a região há mais de 10 mil anos. Suas práticas de gestão territorial, profundamente enraizadas em sistemas comunitários, não foram consideradas nas negociações, demonstrando uma clara desconexão entre as visões europeias de propriedade e as realidades indígenas.

Outro caso emblemático é a noção de “terra nullius” na Austrália, que, por mais de um século, desconsiderou a presença dos povos aborígines. Para esses povos, a concepção de “País” envolve uma interconexão profunda entre terra, água, seres vivos e tradições ancestrais, o que contrasta substancialmente com a noção europeia de propriedade privada. Esse conceito foi finalmente reconhecido pelo sistema legal australiano em 1992, quando o Tribunal Superior da Austrália decidiu que os direitos territoriais indígenas eram legítimos.

O impacto da lógica colonial

No contexto dos Estados Unidos, a justificação das terras indígenas como propriedade governamental foi solidificada em decisões judiciais como a de 1823, quando a Suprema Corte dos EUA determinou que os nativos poderiam viver em suas terras, mas não tinham o direito de vendê-las, exceto ao governo federal. Esta lógica, enraizada no “Doutrina da Descoberta”, permitiu a implementação de políticas que levaram à desapropriação em larga escala das terras indígenas, cujas consequências ainda reverberam hoje.

Conclusão

As palavras de Trump sobre a Groenlândia, longe de serem uma simples frase, evocam uma longa história de desconsideração das terras indígenas e de suas práticas custodiais. Esse padrão colonial, que busca justificar a apropriação de espaços habitados com base em critérios europeus, não pode ser ignorado, pois é um reflexo de uma história que ainda molda as interações contemporâneas sobre propriedade e uso da terra. As vozes dos povos indígenas devem ser ouvidas e respeitadas para que haja uma verdadeira reconciliação com as histórias que foram silenciadas por tanto tempo.

Fonte: www.dw.com

Fonte: REUTERS

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