Entenda as inovações que estão transformando a proteção da natureza
A inteligência artificial está mudando a forma como monitoramos e protegemos a natureza, com inovações que melhoram a conservação.
A adoção de tecnologias de inteligência artificial (IA) está se tornando uma realidade essencial para a conservação ambiental no Brasil e no mundo. Esses sistemas, que incluem sensores de baixo consumo energético e algoritmos de aprendizado de máquina, possibilitam monitorar desmatamentos, degradação do meio ambiente e alterações nos ecossistemas em tempo quase real. Essa transformação é apontada como uma das principais tendências do Global Horizon Scan 2026, um relatório que analisa inovações que podem impactar a conservação da biodiversidade.
O papel das tecnologias emergentes
Produzido pelo Centro de Monitoramento da Conservação Mundial do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP-WCMC), o Global Horizon Scan 2026 destaca a crescente capacidade das tecnologias digitais de monitorar ecossistemas em tempo real, especialmente em áreas remotas onde o acesso é limitado. A combinação de inteligência artificial, sensores inteligentes e grandes volumes de dados não apenas fortalece a base de evidências para tomadas de decisões em conservação, mas também suscita debates sobre acesso à tecnologia e governança de dados.
O relatório enfatiza a importância do Tiny Machine Learning (TinyML), uma técnica que permite a coleta e análise de dados em dispositivos compactos que operam com energia mínima, sem a necessidade de conexão constante com a internet. Essa abordagem é especialmente relevante para biomas brasileiros, como a Amazônia e o Cerrado, onde as condições são desafiadoras. Francisco Nilson Moreira, coordenador de sustentabilidade na COP-30, aponta que a resistência e o custo acessível desses dispositivos são fundamentais para sua implementação em condições adversas.
Avanços e desafios na implementação
À medida que a coleta de dados ambientais em larga escala se torna viável, a IA pode auxiliar na identificação de padrões complexos, que seriam difíceis de perceber apenas pela observação humana. Moreira ressalta a necessidade de uma abordagem integrada, afirmando que a ciência tradicional muitas vezes falha em capturar a complexidade dos sistemas naturais. A utilização da IA, portanto, poderá tornar a gestão pública mais eficaz, ao permitir uma compreensão mais profunda dos fenômenos ambientais críticos.
Entretanto, essa inovação não está isenta de riscos. A governança dos dados é uma preocupação central; o aumento do lixo eletrônico gerado pelo uso em massa de sensores exige a aplicação rigorosa das leis de logística reversa. Marcelo Oliveira, diretor técnico de biodiversidade do Fundo Mundial para a Natureza (WWF Brasil), enfatiza que a ética deve guiar o uso da IA na conservação, alertando para o risco de que essa tecnologia se torne uma ferramenta de vigilância sobre comunidades tradicionais e povos indígenas.
O futuro da conservação com inteligência artificial
Apesar das preocupações, há um consenso entre especialistas de que a inteligência artificial tem um papel crucial na antecipação de ameaças à biodiversidade. Com a capacidade de detectar tendências de desmatamento e eventos extremos com antecedência, esses sistemas oferecem uma oportunidade valiosa para agir antes que os danos se tornem irreversíveis. No entanto, é essencial que a validação das informações obtidas pela IA seja realizada em campo, garantindo a interpretação humana nos dados coletados.
O Global Horizon Scan 2026 aponta que a IA não deve ser vista como uma solução isolada para os desafios da conservação. Em vez disso, sua aplicação deve ser integrada a políticas públicas e ao conhecimento local, respeitando as práticas e saberes tradicionais. Quando aplicada de forma adequada, a tecnologia pode expandir nossa capacidade de entender a complexidade da natureza e responder rapidamente às suas ameaças. O sucesso dessa abordagem dependerá de uma governança robusta e inclusiva, assegurando que os benefícios da inovação alcancem aqueles que vivem e protegem os territórios na prática.
Fonte: www.metropoles.com