Há algo curioso no nosso tempo: a tecnologia estética democratiza sonhos enquanto simultaneamente amplia dilemas éticos. O chamado “bumbum sem cirurgia” — obtido por preenchimentos, subcisão e bioestimuladores — é o retrato perfeito dessa ambiguidade contemporânea.
O que antes era restrito a poucos bolsos tornou-se mais acessível. A queda de preços, o surgimento de novos produtos e a concorrência ampliaram o mercado. O desejo, claro, permaneceu o mesmo: contorno corporal, projeção, simetria. Mas a pergunta séria nunca foi “quanto custa?”. A pergunta correta é: qual produto, em qual plano anatômico, com qual volume e com qual protocolo de segurança?
A medicina estética madura não discute tamanho. Discute risco.
Procedimentos com ácido hialurônico corporal — os chamados body fillers — podem ser seguros quando realizados com técnica adequada, produtos rastreáveis e conhecimento profundo da anatomia vascular glútea. O problema começa quando a lógica do consumo invade a lógica médica. Preço baixo demais, promessa rápida demais e profissionais sem formação adequada criam um território perigoso.
E é aqui que surge a linha tênue entre estética e tragédia.
Substâncias ilegais, como silicone industrial ou produtos não aprovados, continuam circulando em mercados clandestinos. São baratos, sedutores e potencialmente devastadores. Infecções graves, necrose, embolias e deformidades permanentes não são exageros — são consequências documentadas na literatura médica.
Segundo a visão integrativa defendida por Dr. Pablo Llompart, qualquer intervenção estética deve ser analisada dentro de um conceito maior de saúde biológica. O tecido não é apenas forma; é metabolismo, vascularização, resposta inflamatória e imunológica. Quando se ignora essa complexidade, o corpo cobra a conta.
Existe também um fator psicológico raramente discutido: a padronização estética. Redes sociais criaram um arquétipo corporal quase industrial, onde proporções se repetem como moldes. O risco não é apenas médico — é cultural. Quando o corpo vira produto, a decisão deixa de ser médica e passa a ser mercadológica.
Preenchimentos glúteos não são vilões. Podem ser ferramentas válidas dentro de protocolos responsáveis: avaliação individual, volumes moderados, acompanhamento e manejo de complicações. O perigo está na banalização.
A verdadeira questão não é ter ou não ter procedimento.
É compreender que medicina não é comércio de centímetros.
É gestão de risco, responsabilidade biológica e ética profissional.
No fim, talvez a reflexão mais importante seja simples: em uma sociedade que busca resultados imediatos, quem ainda está disposto a respeitar o tempo, os limites e a inteligência do próprio corpo?
Porque beleza pode ser construída.
Mas segurança precisa ser preservada.
Dr. Claudio Wulkan, Dermatologia Clínica e Cirúrgica UNIFESP – Escola Paulista de Medicina Revisor Científico de Livros de Dermatologia da Editora Médica Manole Assistente Depto. de Dermatologia da FMABC Membro das: Sociedade Brasileira de Dermatologia, Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica, American Academy of Dermatology, Corpo Clínico Hosp. Israelita Albert Einstein Alphaville desde 2004
Jornalista Pedro Ernesto Macedo