Bad Bunny e o dilema do trumpismo no Super Bowl 2026

A apresentação do artista expõe tensões culturais e políticas nos EUA.

A apresentação de Bad Bunny no Super Bowl revela tensões culturais e políticas nos EUA.

A apresentação de Bad Bunny no intervalo do Super Bowl LX, realizado no último domingo (8), transcendeu o mero entretenimento. Ao celebrar a cultura latina em um dos maiores palcos esportivos dos Estados Unidos, o cantor porto-riquenho acionou alarmes na ala trumpista e aprofundou a guerra cultural que permeia o cenário político do país, à medida que as eleições de meio de mandato se aproximam.

O impacto da música latina na política

A reação mais intensa veio do presidente Donald Trump, que, em sua rede social TruthSocial, aclamou o show como “uma afronta à grandeza da América”, alegando que “ninguém entendeu o que ele cantava” e classificando a dança do artista como “repugnante, especialmente para crianças”. Para Trump, a apresentação representou “um tapa na cara dos Estados Unidos”, um sentimento ecoado por aliados do movimento Make America Great Again (MAGA), influenciadores conservadores e membros do Congresso republicano. Para este segmento político, a predominância do espanhol durante o show simboliza uma ruptura com os “valores tradicionais norte-americanos”.

Entretanto, o descontentamento vai além da mera linguagem; reflete um temor de que a cultura latina esteja se traduzindo em influência política, potencialmente prejudicial ao movimento MAGA. Bad Bunny, cujo nome verdadeiro é Benito Antonio Martínez Ocasio, se destacou como o primeiro artista latino a comandar sozinho o show do intervalo do Super Bowl, apresentando ritmos caribenhos e referências à vida em Porto Rico, como idosos jogando dominó e agricultores em trajes tradicionais. O momento culminante ocorreu quando ele declarou: “A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor”, seguido por uma citação de Trump: “God Bless America”, ressaltando um apelo à unidade.

O espetáculo atraiu mais de 135 milhões de espectadores, tornando-se o show de intervalo mais assistido da história. O sucesso da apresentação também expôs uma contradição no discurso trumpista: enquanto Trump e seus aliados atacam a cultura latina, a NFL busca ampliar sua base de fãs, incluindo este público crescente.

Reações e o cenário político

O impacto político foi imediato. O deputado republicano Andy Ogles, do Tennessee, solicitou a abertura de uma investigação formal contra a NFL e a NBC Universal, acusando-os de permitir que um espetáculo repleto de “pura obscenidade” fosse veiculado em rede nacional. Outros parlamentares, como Randy Fine, da Flórida, ameaçaram acionar a Comissão Federal de Comunicações (FCC).

Entretanto, a reação conservadora não foi unânime. Algumas vozes da direita alertaram que criticar Bad Bunny pode acelerar a perda do apoio do eleitorado latino, que tem crescido constantemente. Pesquisas recentes apontam uma desaprovação significativa de Trump entre hispânicos, com índices de rejeição de 55% a 70%. Nas eleições de 2024, Trump obteve 45% dos votos desse grupo, um aumento em comparação com 32% em 2020, mas ainda assim inferior ao apoio de 53% da democrata Kamala Harris.

O dilema do trumpismo

O contexto do show de Bad Bunny amplifica seu peso simbólico. Desde que retornou ao cargo, Trump intensificou sua retórica contra a imigração, enquanto Bad Bunny se posiciona como uma voz cultural de resistência. Durante o Grammy, dias antes do Super Bowl, o artista declarou: “Fora, ICE. Nós não somos selvagens. Somos seres humanos e somos americanos”. Natural de Porto Rico, um território dos EUA marcado por desigualdade, Bad Bunny mescla música, identidade e política em sua carreira.

Embora tenha evitado mencionar Trump diretamente durante sua apresentação, a mensagem de pertencimento e unidade continental foi clara. Ao encerrar o show com a frase “seguimos aqui”, ele se posicionou como um ícone cultural e político para democratas e lideranças latinas, que celebraram o evento como um marco, chamando-o de “Boricua Bowl” em referência à culinária porto-riquenha.

Para o trumpismo, esse episódio revelou um dilema: enquanto a polarização cultural pode mobilizar a base fiel, ela também pode afastar um eleitorado decisivo. Com a eleição de meio de mandato se aproximando, a perda do apoio latino pode significar um avanço para os democratas, especialmente se eles conseguirem o controle de uma das casas legislativas, o que poderia limitar a capacidade da Casa Branca de agir na segunda metade do mandato de Trump.

Fonte: www.metropoles.com

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