Mário Quintana Morreu. Você Ainda Está Aqui. E Daí? Por Pedro Ernesto Macedo

Mário Quintana nasceu numa cidade do interior do Rio Grande do Sul, em 1906, e passou boa parte da vida dentro de um quarto de hotel em Porto Alegre. Parece pouco. Parece quase nada. Mas desse quarto saíram alguns dos versos mais certeiros que a língua portuguesa já produziu sobre o que é viver, envelhecer e ainda assim continuar de olhos abertos para o mundo.

Ele dizia que o tempo não passa — a gente é que passa. E quando li isso pela primeira vez, confesso que ri. Achei elegante demais, aforismo de almanaque, frase de calendário. Mas o tempo foi me ensinando — com a crueldade pedagógica que só ele tem — que Quintana estava certo. O rio não corre. Somos nós que corremos pelo rio.

Pense nisso por um momento. A mesma manhã de março que hoje abre sobre você, já abriu sobre seu pai, sobre seu avô, sobre alguém que você nunca conheceu mas que respirou nesse mesmo ar. O tempo não tem pressa. É paciente como a erosão. Vai desgastando devagar, sem avisar, e um dia você olha no espelho e percebe que os anos não passaram — você é que atravessou todos eles, carregando o que pôde, deixando pelo caminho o que não aguentou.

Quintana transformou esse peso em leveza. Era sua grande alquimia. Pegava o angustiante — a passagem, a perda, o esquecimento — e devolvia ao leitor em forma de sorriso melancólico. Um sorriso que você faz sem querer, sozinho, como quem reconhece uma verdade que sempre soube mas nunca tinha palavras para dizer.

E o que isso tem a ver com a nossa vida? Com a sua vida, concretamente, nesta semana?

Tem tudo. Tem absolutamente tudo.

Vivemos numa era que vendeu ao ser humano a ilusão do controle total. Controlamos a temperatura do quarto, a velocidade da informação, o ritmo da música. Mas o tempo — esse velho indomável — segue no seu compasso. E quem não aprende a conviver com ele, a respeitá-lo, a olhá-lo nos olhos sem fugir, acaba sendo atropelado pela própria vida.

Quintana não tinha smartphone. Não tinha agenda lotada de compromissos sobrepostos. Tinha um quarto, uma máquina de escrever, uma janela. E tinha a sabedoria de saber que o tempo não é inimigo — é o material do qual a vida é feita. Desperdiçá-lo em ansiedade, em rancor, em espera de um momento ideal que nunca chega, é o único desperdício verdadeiramente irreparável.

Há um verso dele, curto como um soco, que eu carrego comigo há anos: “Ah, como é cedo ainda! Sempre é cedo. Ou tarde. Nunca é agora.” Você leu isso e reconheceu, não foi? Esse estado permanente de quem vive no ontem ou no amanhã, raramente no presente. Quintana diagnosticou em versos o que a psicologia moderna levaria décadas para nomear.

A mensagem que ele nos deixou é simples e incômoda: viva enquanto está vivo. Não depois. Não quando tudo estiver resolvido. Agora. Com o que você tem. No lugar onde você está.

Porque o tempo que passa não é tragédia. Tragédia é o tempo que passa em branco.

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