O ciclo da vida humana envolve diferentes fases de evolução, cada uma com características bem distintas. Essas fases ocorrem sob eixos como o psico-neuro-imuno-endócrino, exercendo um papel funcional e metabólico fundamental em cada etapa da vida.
Desde a infância, passando pela adolescência e pelos subsequentes períodos da vida adulta, nosso organismo dispõe de recursos para dar suporte a cada uma dessas etapas. Naturalmente, fatores ambientais como nutrição, hidratação, sono, atividades físicas e estilos de vida oferecem condições que podem variar de excelentes a precárias dentro de cada uma dessas fases. A síntese dessas interações se expressa em nosso nível de saúde, bem-estar e plenitude à medida que transitamos pela vida.
Uma fase que tem chamado muita atenção na vida adulta das mulheres é a denominada menopausa. Ela é definida como a interrupção definitiva do período fértil feminino, ocorrendo, na maioria dos casos, entre os 45 e 55 anos de idade.
Eventualmente, pode ocorrer o que se chama de menopausa precoce, que pode surgir por causas naturais ou por fatores como determinados tratamentos médicos, procedimentos que envolvem a retirada do útero ou mesmo a supressão prolongada do ciclo menstrual por meio do uso de anticoncepcionais, entre outras razões.
Progressivamente, essa mudança natural na vida das mulheres tem se tornado um tema de grande relevância, e a menopausa passou a ser tratada, muitas vezes, de forma semelhante a uma patologia. Embora seja considerada uma fase natural da vida feminina, existe inclusive um código CID (Classificação Internacional de Doenças) associado a ela: N95.
A menopausa é confirmada quando há ausência de fluxo menstrual por 12 meses consecutivos. Em alguns casos, recomenda-se a dosagem hormonal para confirmação diagnóstica, embora a interrupção menstrual geralmente já seja considerada suficiente. Essa confirmação torna-se ainda mais evidente quando surgem sintomas característicos, como os fogachos (ondas de calor), frequentemente associados a essa fase.
Além dessas considerações, por vezes contraditórias — afinal, se é uma fase natural, por que classificá-la dentro de um sistema de doenças? —, a menopausa também costuma ser associada a maior incidência de osteoporose e complicações cardiovasculares.
Interessantemente, recomenda-se que nesse período as mulheres mantenham peso adequado, pratiquem exercícios físicos regularmente, evitem tabagismo e consumo excessivo de álcool e cafeína, controlem a pressão arterial, previnam ou tratem o diabetes, reduzam o estresse, e mantenham sob controle colesterol e triglicérides, além de recorrer, quando necessário, a tratamentos medicamentosos sintomáticos ou à terapia hormonal.
No entanto, é importante observar que essas recomendações não se aplicam apenas à menopausa. Elas são, na verdade, orientações amplamente indicadas para qualquer pessoa, homem ou mulher, em qualquer fase da vida.
Dessa forma, percebe-se que essa alteração funcional natural do organismo feminino passou a ser frequentemente interpretada dentro de um contexto fortemente associado a sintomas e possíveis complicações. Atualmente, já se descrevem mais de cem sintomas relacionados à menopausa, o que contribui para que essa fase fisiológica seja percebida, por muitas mulheres, quase como uma condição patológica.
Tanto na comunidade médica quanto nas redes sociais, essa condição é frequentemente retratada como um período problemático da vida da mulher. Com isso, formou-se um cenário complexo em torno da fisiologia feminina, que também se consolidou como um mercado promissor, com diversos produtos, tratamentos, abordagens e discursos voltados a essa fase da vida.
Por outro lado, pouco se considera como se transformou a vida da mulher contemporânea. Diversos fatores ligados ao consumo, aos valores culturais e às exigências sociais acabam criando condições muitas vezes adversas à própria natureza biológica da mulher.
A natureza humana possui ciclos bem definidos, em que determinadas funções ocorrem alinhadas aos processos biológicos. Durante a vida fértil, a menstruação exerce também um papel de regulação e eliminação fisiológica, processo que naturalmente se encerra com a chegada da menopausa.
Além disso, muitas das mudanças de hábitos consideradas desejáveis — como alimentação equilibrada, prática regular de exercícios físicos e manejo adequado do estresse — ainda estão longe de fazer parte da realidade da maioria das mulheres, que frequentemente precisam conciliar múltiplas responsabilidades sociais, profissionais e familiares.
Efetivamente, o que ocorre é que diversos tipos de conflitos e pressões acabam se somando, desencadeando respostas biológicas que se manifestam como os sintomas frequentemente associados à menopausa. No entanto, essas respostas possuem propósitos específicos e estão relacionadas às percepções e experiências vividas por cada indivíduo.
Esses processos se expressam em diferentes fases, de forma ativa e previsível na natureza, sendo seguidos por fenômenos metabólicos e bioquímicos que acabam manifestando sintomas muitas vezes atribuídos exclusivamente à menopausa.
Assim, a menopausa passa a ser vista quase como um “fantasma” que ronda bilhões de mulheres, que acabam sofrendo sem compreender plenamente as reais causas de seus sintomas.
Essas causas muitas vezes permanecem presentes e atuantes dentro do modelo de vida contemporâneo, no qual a mulher se encontra frequentemente submetida a adversidades, desafios e pressões culturais e sociais. Nesse contexto, muitas acabam sem a oportunidade de vivenciar plenamente essa nova fase da vida — que, em sua essência, poderia ser saudável, equilibrada e bem vivida.
Maurílio Brandão