A responsabilidade que ninguém vê

Há poucos dias, ouvi um desembargador aqui do Paraná comentar sobre um conceito que, embora eu já conhecesse na prática, nunca tinha aprendido a nomear: a incompetência estratégica.

Na hora, pensei: “Então era isso.” Porque, no Direito de Família, a gente vê esse comportamento com muito mais frequência do que imagina. É aquela situação em que um dos pais e, estatisticamente, isso ainda acontece muito mais com os homens, embora possa partir de qualquer um dos dois, se coloca constantemente em uma posição de incapacidade.

Nem sempre isso é feito de maneira consciente ou planejada. Muitas vezes, começa com frases aparentemente inocentes: “Ela gosta mais de ficar com você.” “Você sabe dar banho melhor.” “Eu nunca sei qual roupa colocar.” “Você entende mais dessas coisas da escola.” “Você sabe o horário dos remédios.” “Você organiza a mochila melhor do que eu.”

À primeira vista, essas frases podem até parecer um elogio, quase um reconhecimento de que o outro possui mais habilidade, cuidado ou organização. Mas, com o passar do tempo, o efeito é muito diferente.

Quem “faz melhor” passa a fazer sempre. Quem “não sabe” deixa de tentar. Quem organiza continua organizando. Quem lembra continua lembrando. Quem decide continua decidindo.

E, aos poucos, uma responsabilidade que deveria ser compartilhada passa a ter um único responsável.

É importante dizer que esse comportamento pode partir de qualquer um dos pais. No entanto, por uma construção histórica e cultural, ainda é muito comum que a maior parte das responsabilidades relacionadas aos filhos permaneça concentrada nas mulheres.

E não estou falando somente de trocar uma fralda, preparar uma refeição, levar à escola ou acompanhar uma consulta, estou falando da carga mental de criar um filho, é lembrar que o uniforme precisa ser lavado, que a vacina está atrasada, que haverá reunião na escola, que é preciso comprar o presente do aniversário do colega, que faltou enviar a autorização para o passeio, que o remédio está acabando, que a criança não está dormindo bem, que é preciso remarcar o dentista, que a calça já ficou pequena, que sexta-feira é o dia de levar algum objeto para uma atividade da turma.

São tarefas que quase nunca aparecem em uma fotografia, não são facilmente contabilizadas e nem sempre são percebidas por quem está de fora, mas ocupam espaço na cabeça, exigem atenção constante e pesam muito.

Talvez por isso tantas mães estejam cansadas mesmo quando, aparentemente, “não fizeram nada demais” naquele dia. Porque cuidar de uma criança não é apenas executar tarefas. É planejar, antecipar, organizar, acompanhar, lembrar e resolver.

No Direito de Família, discutimos constantemente guarda, pensão alimentícia e regime de convivência, falamos sobre finais de semana, feriados, férias escolares, horários de busca e entrega e divisão de despesas. Tudo isso é necessário. Mas talvez exista uma conversa anterior e ainda mais importante: a conversa sobre responsabilidade parental.

Guarda compartilhada não significa apenas dividir o tempo da criança entre duas casas, também não significa que um dos pais ficará com os filhos em determinados finais de semana enquanto o outro continuará responsável por toda a organização da vida deles.

Compartilhar a guarda é compartilhar decisões. É saber o nome do professor, é conhecer o pediatra, é acompanhar a vida escolar, é participar das escolhas, é entender a rotina, é saber do que a criança gosta, do que ela tem medo e do que ela precisa, é assumir responsabilidades mesmo quando ninguém está olhando.

E aqui existe um ponto importante: ninguém nasce sabendo ser pai ou mãe. Todos aprendem, aprendem errando, aprendem tentando, aprendem perguntando e principalmente aprendem estando presentes.

Por isso, dizer constantemente “eu não sei fazer” não pode se tornar uma justificativa permanente. Quem não sabe pode aprender. Quem nunca fez pode começar. Quem faz diferente não necessariamente faz errado.

Às vezes, inclusive, o excesso de controle de quem sempre assumiu tudo também dificulta essa participação. É comum que, especialmente nos primeiros anos da criança, um dos pais acredite que somente ele sabe cuidar, alimentar, vestir ou colocar para dormir. E, sem perceber, também impede que o outro desenvolva autonomia.

Por isso, a responsabilidade precisa caminhar dos dois lados. Um precisa estar disposto a assumir e o outro precisa estar disposto a permitir que ele aprenda.

Não se trata de exigir que pai e mãe façam tudo da mesma forma. Cada família encontra a sua própria dinâmica. Pode existir uma divisão de tarefas diferente, baseada na rotina, no trabalho, nas habilidades e na realidade de cada casal. Nem toda divisão precisa ser exatamente igual para ser justa.

O problema começa quando um escolhe quais tarefas quer realizar e abandona ao outro todas aquelas que exigem planejamento, constância e renúncia.

Também está na hora de repensarmos o elogio ao pai que “ajuda muito”. Quem é pai não ajuda a mãe a criar o filho. Ele cria o próprio filho.

Da mesma forma, convivência não é favor, presença não é gentileza, responsabilidade não é uma escolha que pode ser exercida apenas quando for conveniente.

Ser pai e ser mãe envolve direitos, mas também obrigações diárias, silenciosas e repetitivas.

E talvez essa seja uma das grandes questões das famílias contemporâneas: não basta estar presente nas fotografias, nos passeios ou nos momentos agradáveis. É preciso estar presente na rotina, no cansaço, nas decisões difíceis, nas noites mal dormidas, nas consultas, nas reuniões, nos imprevistos.

Criar um filho nunca deveria ser uma tarefa em que uma pessoa faz tudo porque a outra diz que “não sabe”.

Afinal, ninguém precisa saber tudo desde o início, mas todos precisam estar dispostos a aprender. 

 

PUBLICIDADE

VIDEOS

Relacionadas: