COVID longa: o diagnóstico começa antes dos exames

Dr. Dorival Ricci Junior – Médico Expert em Tratamento de Pós-Covid
CRM-PR 18.090 | RQE 23.016 / 23.035
Instagram @drdorivalriccijr

 

Existe uma pergunta que se repete com frequência no consultório: “Há algum exame que confirme a COVID longa?”

 

A resposta, para muitos, é surpreendente: na maioria dos casos, não.

 

Diferentemente de inúmeras doenças, a Síndrome Pós-COVID ainda não dispõe de um biomarcador específico ou de um exame complementar capaz de confirmar, isoladamente, o diagnóstico. O reconhecimento da doença continua fundamentado na avaliação clínica, na cronologia dos sintomas e na exclusão de outras condições que possam justificar o quadro.

 

Esse desafio diagnóstico motivou um dos mais importantes estudos já realizados sobre COVID longa. O consórcio norte-americano RECOVER, em artigo publicado no JAMA, analisou milhares de pacientes e desenvolveu um modelo de pontuação baseado na combinação de sintomas, capaz de identificar, com elevada acurácia, indivíduos com maior probabilidade de apresentar a síndrome. A principal contribuição do estudo não foi criar um novo exame, mas demonstrar, por meio de evidências robustas, que determinados conjuntos de sintomas possuem elevado valor diagnóstico quando analisados de forma sistematizada.
https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2805540

 

Entre os sintomas com maior peso destacam-se fadiga persistente, mal-estar após esforço físico ou mental, alterações cognitivas (“névoa cerebral”), perda persistente do olfato ou paladar, palpitações, tonturas, dor torácica, tosse, disfunções hormônios sexuais e manifestações gastrointestinais. Isoladamente, muitos deles são considerados inespecíficos. Em conjunto, entretanto, desenham um padrão clínico bastante característico.

 

Inspirado nesse modelo científico, passei a utilizar, na prática clínica, um protocolo estruturado de pontuação de sintomas para auxiliar a avaliação de pacientes com suspeita de COVID longa. Trata-se de uma adaptação para o consultório de um conceito validado em pesquisa clínica: organizar a história do paciente de maneira sistemática, aumentando a sensibilidade da investigação sem substituir o julgamento médico. O protocolo não estabelece o diagnóstico por si só; ele orienta o raciocínio clínico e reforça a importância de uma anamnese cuidadosa e está disponível gratuitamente para profissionais de saúde e leigos, em minha rede social do Instagram.
https://drdorivalriccijr.medicinabrasil.site/score-1-1/

 

Vivemos uma época em que exames sofisticados ocupam posição central na medicina. No entanto, a COVID longa talvez esteja nos ensinando justamente o contrário: que algumas das respostas mais importantes continuam surgindo da conversa entre médico e paciente.

 

A medicina baseada em evidências não diminui o valor da clínica; ao contrário, oferece ferramentas para torná-la mais precisa. O estudo RECOVER mostrou que ouvir o paciente de forma estruturada pode ser tão importante quanto solicitar exames. Esse talvez seja um dos maiores ensinamentos deixados pela COVID longa: antes de procurar respostas nos laboratórios, é preciso aprender a reconhecer as histórias que os pacientes nos contam.

 

Porque, muitas vezes, o diagnóstico começa muito antes dos exames.

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