Mercado de influência muda e número de seguidores deixa de ser o único caminho para atrair marcas

Com avanço do UGC e maior profissionalização dos criadores, posicionamento, autenticidade e capacidade de produzir conteúdo ganham peso; histórias de duas empreendedoras mineiras mostram as transformações do setor

Durante muito tempo, tornar-se influenciador digital parecia depender de uma fórmula relativamente simples: conquistar milhares — ou milhões — de seguidores e, a partir daí, chamar a atenção das marcas. O mercado, porém, está mudando.

Criadores menores, produção de conteúdo para empresas, UGC (User Generated Content), nichos específicos e comunidades mais próximas passaram a fazer parte das estratégias das marcas, ao mesmo tempo em que o trabalho de quem vive ou pretende viver da criação de conteúdo se torna cada vez mais profissional.

Um levantamento da Influency.me, realizado a partir de uma base com mais de 9 milhões de criadores e analisando ações feitas entre 2023 e 2025, mostrou que microinfluenciadores, com 10 mil a 50 mil seguidores, e influenciadores médios estão entre os grupos mais demandados pelas marcas.

Já o estudo Mapa da Influência, da MField, apontou autenticidade e humanização entre as principais tendências do marketing de influência para 2026 e também destacou o crescimento do conteúdo gerado pelo usuário, o UGC.

Na prática, isso significa que ter uma audiência gigantesca já não é a única porta de entrada. Saber produzir conteúdo, entender o próprio público, construir uma identidade digital e apresentar profissionalmente seu trabalho passaram a ter importância crescente.

Foi acompanhando essa transformação que duas mulheres do interior de Minas Gerais decidiram transformar suas próprias experiências no ambiente digital em um negócio.

Da primeira divulgação para lojas locais à profissionalização

Luana Barony, de 31 anos, começou a trabalhar como influenciadora há mais de uma década, divulgando inicialmente lojas de Nova Era, cidade mineira onde nasceu.

Com o passar dos anos, as oportunidades cresceram e chegaram marcas de outros estados e até internacionais. Mas a experiência também trouxe frustrações.

Ao longo da trajetória, Luana investiu em agências e assessorias na expectativa de conquistar novas oportunidades e nem sempre encontrou o retorno ou direcionamento que esperava. Em outros momentos, enfrentou dúvidas comuns entre criadores: o que publicar, como se posicionar e, principalmente, como apresentar seu trabalho para uma empresa.

Psicóloga de formação, ela percebeu que havia uma lacuna entre simplesmente produzir conteúdo e compreender a criação de conteúdo como atividade profissional.

Foi dessa experiência que em 2024 nasceu, ao lado de Lívia Bueno, a Connect Assessoria.

Maternidade, estudos e o retorno ao mercado digital

A história de Lívia segue outro caminho, mas retrata uma realidade comum a muitas mulheres que tentam construir espaço profissional na internet.

Aos 25 anos e mãe de três filhos, Lívia começou a produzir conteúdo há aproximadamente seis anos. Com a chegada da segunda gestação e a necessidade de conciliar maternidade e estudos, acabou colocando a atuação como influenciadora em segundo plano.

Mesmo afastada da produção frequente, continuou estudando e acompanhando as mudanças do mercado.

Atualmente estudante de Odontologia e Publicidade e Propaganda e morando em Itabira (MG), decidiu retomar a produção de conteúdo e também empreender no setor que vinha observando durante todos esses anos.

A união das duas experiências resultou na criação da Connect, inicialmente como uma tentativa de transformar conhecimento em um modelo de acompanhamento para outras criadoras. O projeto iniciado no interior de Minas passou a reunir mulheres de diferentes estados.

O trabalho colocou Luana e Lívia diante de outra característica da atual creator economy: muitas mulheres querem ingressar nesse mercado, mas não sabem como transformar um perfil pessoal em uma apresentação profissional.

Influenciar passa a exigir estratégia

A transformação também muda a ideia de que basta esperar uma empresa descobrir um perfil nas redes sociais.

Portfólio, mídia kit, posicionamento, prospecção, qualidade do conteúdo, relacionamento com a audiência e afinidade com o universo da marca passam a fazer parte da rotina dos criadores.

“Existe uma crença de que primeiro a pessoa precisa ter milhares de seguidores para depois começar a procurar marcas. Mas o mercado está mostrando que conteúdo, posicionamento e profissionalismo também têm muito peso. O criador precisa entender que existe um trabalho por trás daquela presença digital”, explica Luana.

Para Lívia, a mudança também amplia as possibilidades para mulheres que, como ela, precisam conciliar diferentes papéis.

“Eu sou mãe de três filhos, estudo e empreendo. Durante algum tempo achei que aquele sonho de trabalhar com conteúdo tinha ficado para trás. Quando retomei, percebi que o mercado também havia mudado e que hoje existem diferentes maneiras de trabalhar com criação de conteúdo”, afirma.

Mais do que a busca pelo próximo grande influenciador, a nova fase desse mercado indica uma descentralização da influência: cada vez mais, marcas encontram valor em vozes de nicho, comunidades menores e produtores capazes de transformar experiências cotidianas em conteúdo.

E, nesse cenário, talvez a pergunta esteja mudando. Em vez de “quantos seguidores você tem?”, o mercado começa a olhar também para o que você consegue comunicar, para quem e de que maneira.

Livia Bueno e Luana Barony - Connect Assessoria
Livia Bueno e Luana Barony – Connect Assessoria

 

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