
Dor ao acordar, mãos travadas, joelhos que reclamam: por que isso costuma começar perto dos 45 anos e porque o diagnóstico apressado é um risco.
Você acorda com as mãos rígidas e leva alguns minutos até os dedos obedecerem. Os joelhos doem ao levantar-se da cadeira. O ombro incomoda à noite ao retirar a roupa. Se isso apareceu por volta dos 45, junto com ciclos irregulares e noites mal dormidas, dificilmente é coincidência — e quase nunca é “só coisa da idade”.
A pista mais forte veio da oncologia. No estudo ATAC, ensaio clínico randomizado com mais de 9.000 mulheres na pós-menopausa publicado em The Lancet em 2005, quem recebeu anastrozol — medicamento que bloqueia a produção de estrogênio — relatou dor articular com mais frequência do que quem recebeu tamoxifeno: cerca de 36% contra 29%. O estudo não foi desenhado para investigar dor, e por isso o dado é indireto. Ainda assim, é difícil ignorar: retire o estrogênio e as articulações reclamam. Em 2024, a série sobre menopausa publicada na mesma revista já lista dores musculares e articulares entre os sintomas dessa transição.
O motivo é biológico. Existem receptores de estrogênio na cartilagem, na membrana sinovial, nos tendões e nos músculos. Com a queda hormonal, o líquido sinovial perde qualidade e a articulação desliza pior; mediadores inflamatórios que o estrogênio ajudava a conter ficam mais ativos; e as vias que modulam a dor no sistema nervoso passam a amplificar estímulos que antes você nem percebia. Grande parte desse mecanismo vem de estudos experimentais e observacionais. E na pratica, vemos diariamente em consultório a melhora das dores após início da terapia estrogênica.
Daí vem o ponto que mais me preocupa. Rigidez matinal e dor em mãos e joelhos também são a assinatura de doenças inflamatórias reais, como a artrite reumatoide, que tem pico de incidência justamente na década seguinte à menopausa. Essas doenças existem, precisam ser identificadas cedo e tratadas com seriedade. Mas o caminho oposto também acontece: mulheres começam imunossupressores ou corticoides sem que ninguém tenha olhado para o eixo hormonal. Antes de iniciar uma terapia dessas, vale ter dois olhares — o do reumatologista, que investiga doença autoimune, e o do ginecologista ou endocrinologista com experiência em climatério, que reconhece quando a dor tem origem hormonal.
Não existe fórmula única. A terapia hormonal ajuda muitas mulheres, mas não é indicada para todas. Treino de força, sono e controle do peso têm efeito consistente sobre dor articular em qualquer cenário. O que não pode faltar é diagnóstico antes de conduta.
Se você se reconheceu nestas linhas, leve uma linha do tempo à próxima consulta: quando a dor começou, quais articulações, se coincidiu com mudanças no ciclo, calores ou insônia. Essa informação simples muda a conversa — e, muitas vezes, muda o tratamento.
Dra. Mariana Halla — médica especialista em saúde feminina, menopausa e longevidade.