A Casas Bahia protocolou um pedido de recuperação judicial, conforme anunciado em um fato relevante na noite de domingo, dia 16. Essa decisão foi motivada pela piora nas condições financeiras da empresa, que lida com um cenário de juros elevados, restrição de crédito e um crescente endividamento.
Ana Paula Tozzi, CEO da AGR Consultores, sugere que, embora os fatores macroeconômicos sejam relevantes, eles impactam igualmente todos os concorrentes do setor. O principal problema identificado por Tozzi é de natureza estrutural. Ela destaca que o modelo de negócio da Casas Bahia se afastou significativamente do que é praticado pelos principais concorrentes do varejo.
Tozzi ressalta que a empresa permaneceu muito focada em lojas físicas, demonstrando um crescimento limitado nos canais digitais e uma inovação insuficiente. Em relação à recuperação extrajudicial anunciada em abril de 2024, que envolveu um montante de R$ 4,1 bilhões, a especialista observa que houve pouca mudança no modelo de negócios desde então. "Você viu, sim, muitas iniciativas de redução de custo e melhorias logísticas, mas a agressividade necessária para que o modelo se ajustasse não existiu", afirmou.
Em abril de 2025, a situação da companhia era marcada por disputas no Conselho de Administração e discussões sobre a conversão de debêntures em participação acionária. Recentemente, a empresa fechou quase 300 lojas e demitiu cerca de 2 mil funcionários antes do pedido de recuperação judicial. Para Tozzi, tais ações, embora necessárias, não serão suficientes para reverter a crise enfrentada pela empresa. "Fechar lojas e realizar demissões não garantirá o fôlego necessário. A empresa precisará de recursos para investir em sua transformação", alertou.
Tozzi também apontou que as demissões realizadas antes do pedido de recuperação judicial podem gerar dívidas trabalhistas que são passíveis de parcelamento, o que pode ter sido uma estratégia para organizar o fluxo de obrigações da empresa. Outro aspecto destacado pela especialista é a questão do capital de giro e do estoque. Enquanto o setor de varejo de eletroeletrônicos geralmente opera com 90 dias de estoque, a Casas Bahia está trabalhando com apenas 75 dias, o que dificulta o giro das mercadorias e a geração de caixa.
"É preciso girar o varejo para que esse giro traga capital de giro livre, permitindo que a empresa continue investindo e crescendo", explicou. Ela também mencionou a tendência de retorno ao crédito direto ao consumidor por meio de crediários próprios, observada no setor varejista. No entanto, Tozzi alerta que essa prática pode implicar taxas de juros mais altas do que as oferecidas pelo sistema financeiro, penalizando especialmente as camadas mais vulneráveis da população. "O varejo deixa de operar com seu modelo original e passa a funcionar como uma financeira", concluiu, enfatizando que a concessão de crédito é uma competência do setor bancário, não do varejo.