Disputa pelas contas aprofunda crise no Clube Curitibano e levanta suspeitas de perseguição à gestão anterior

Fontes ouvidas sob reserva apontam influência de ex-diretor sem cargo formal na atual administração; auditorias não teriam identificado desvios, enquanto a Justiça já reconheceu indícios de possível restrição ao direito de defesa


Uma disputa envolvendo a prestação de contas da gestão 2022–2025 aprofundou a crise política vivida pelo Clube Curitibano e colocou em lados opostos antigos integrantes de uma mesma diretoria. Nos bastidores, fontes ligadas à vida política da instituição afirmam que a atual administração estaria usando os órgãos internos do clube para desgastar e responsabilizar dirigentes do mandato anterior, apesar de auditorias não terem apontado, segundo essas fontes, desvios de recursos ou prejuízo financeiro.

O confronto ocorre dentro de uma das instituições sociais e esportivas mais tradicionais do Paraná. Fundado em 1881 e em funcionamento desde janeiro de 1882, o Clube Curitibano atravessa gerações e participa da história cultural e esportiva de Curitiba. Atualmente, reúne cerca de 30 mil associados, entre titulares e dependentes, e administra uma estrutura com orçamento anual estimado em R$ 100 milhões.

A crise teria começado ainda durante o mandato presidido por Paulo Roberto Oliveira. Naquela composição, um ex-diretor ocupava a primeira vice-presidência e Joel Macedo Soares Pereira Neto, a segunda. Segundo informações obtidas pela reportagem com fontes que pediram para não ser identificadas, divergências internas teriam transformado o então primeiro vice-presidente em adversário da própria administração da qual fazia parte.

Os relatos reservados atribuem ao ex-dirigente uma atuação marcada por confrontos em reuniões, contestações recorrentes e tentativas de enfraquecer o então presidente e os demais diretores. As fontes também sustentam que o ex-vice-presidente passou a exercer influência sobre grupos de associados e, posteriormente, apoiou Joel Macedo na eleição de 2025.

Joel venceu o pleito com 2.605 votos, equivalentes a 43,18% dos 6.034 votos registrados, e assumiu a presidência em 2026. O dado torna o embate ainda mais sensível: o atual presidente, agora à frente da revisão das contas, havia sido segundo vice-presidente da gestão colocada sob questionamento.

De acordo com as fontes, a campanha eleitoral foi marcada por ataques pessoais, circulação de informações falsas e mensagens em grupos de WhatsApp destinadas a desconstruir a imagem da antiga diretoria. As acusações não foram verificadas de maneira independente pela reportagem e são apresentadas sob a proteção constitucional do sigilo da fonte.

Influência sem cargo formal

Outro ponto central da controvérsia é a atuação de um ex-diretor e ex-vice-presidente após a mudança de comando. Mesmo sem ocupar oficialmente uma função administrativa ou uma cadeira no Conselho, ele estaria, conforme as fontes ouvidas, participando dos bastidores e influenciando decisões relevantes da nova gestão.

Essa suposta interferência é interpretada por integrantes ligados ao mandato anterior como parte de uma estratégia para manter vivo o conflito eleitoral e atingir pessoalmente os ex-dirigentes. Não há, porém, documento público que formalize poder decisório do ex-vice-presidente na administração atual. A alegação se baseia nos relatos protegidos por sigilo.

Duas auditorias e uma disputa sobre as conclusões

O ponto mais delicado da crise está na análise das contas do exercício 2024/2025. As demonstrações financeiras da antiga administração haviam sido examinadas pela Martinelli Auditores. Posteriormente, diante dos questionamentos levados aos órgãos internos do clube, uma nova apuração foi contratada com a Ernst & Young (EY).

Segundo as informações repassadas à reportagem, o trabalho da EY durou aproximadamente 150 dias e custou mais de R$ 500 mil, pagos pelo próprio clube. As mesmas fontes afirmam que a consultoria não encontrou desvio de recursos nem prejuízo financeiro e que a administração anterior encerrou o mandato com cerca de R$ 43 milhões em caixa.

A reportagem não teve acesso à íntegra do relatório da EY e, por isso, não pôde confirmar de forma independente o custo exato do trabalho nem todas as suas conclusões. O próprio acesso ao documento tornou-se parte da disputa interna e judicial.

Apesar de as duas auditorias não terem identificado irregularidades, desvios de recursos ou prejuízo financeiro, uma comissão temporária do Conselho Deliberativo produziu parecer próprio e recomendou a desaprovação das contas. Segundo as fontes ouvidas, a Martinelli Auditores, responsável pela análise das demonstrações financeiras, aprovou as contas sem ressalvas. O trabalho posterior da Ernst & Young (EY) também não teria apontado qualquer problema financeiro. Ainda assim, o Conselho Deliberativo aderiu à recomendação pela desaprovação, e o assunto avançou para os demais órgãos estatutários.

Na avaliação das fontes ouvidas sob reserva, a decisão de prosseguir com a reprovação, mesmo diante das conclusões das duas auditorias independentes, reforçaria a percepção de que o processo estaria sendo conduzido de má-fé e com uma finalidade predominantemente política. Para esse grupo, a sucessão de medidas indicaria que primeiro se decidiu reprovar as contas para, somente depois, buscar argumentos que sustentassem esse resultado. Essa interpretação é contestada pela atual administração, que defende a competência dos órgãos internos para examinar as contas e apurar eventuais responsabilidades.

Justiça suspendeu efeitos de reunião

A controvérsia chegou ao Tribunal de Justiça do Paraná. Em 2 de junho de 2026, uma decisão liminar da 19ª Câmara Cível suspendeu os efeitos da reunião extraordinária do Conselho Deliberativo realizada em 5 de maio, especificamente quanto à análise e à reprovação das contas de 2024/2025, além dos atos posteriores decorrentes daquela deliberação.

O recurso foi apresentado pelo ex-diretor financeiro Mário Beatriz Júnior. Ele alegou que seus advogados foram impedidos de participar da reunião, que documentos essenciais não haviam sido disponibilizados e que não houve oportunidade efetiva de defesa antes da deliberação.

Ao conceder a medida, o desembargador José Hipólito Xavier da Silva apontou a existência, naquele momento inicial do processo, de indícios de possíveis ofensas aos princípios da transparência e da participação, além de eventual violação ao contraditório e à ampla defesa. A decisão destacou que uma reprovação adotada sem a manifestação do responsável pelas contas poderia causar impactos pessoais, profissionais e funcionais.

A liminar não aprovou as contas nem antecipou o resultado definitivo da ação. Ela suspendeu os efeitos dos atos questionados até uma análise mais aprofundada. Em manifestações públicas, o Clube Curitibano também sustentou que o processo continua em tramitação e que a decisão provisória não representa julgamento final sobre a regularidade da antiga gestão.

Tradição submetida a um conflito político

Para ex-dirigentes e associados críticos à administração atual, o caso deixou de ser uma discussão estritamente contábil. A tentativa de rejeitar contas que, segundo eles, passaram por duas empresas independentes sem a identificação de desvios seria uma forma de punição política contra adversários internos.

As fontes também questionam o gasto superior a meio milhão de reais com uma nova auditoria, especialmente se o trabalho não constatou prejuízo aos cofres da instituição. Para esse grupo, insistir na reprovação mesmo diante da ausência de irregularidades demonstraria que o objetivo não seria proteger o patrimônio do clube, mas construir uma narrativa negativa sobre o mandato anterior.

Do outro lado, a atual gestão sustenta publicamente que a análise das contas cabe aos órgãos estatutários e que os procedimentos devem seguir até uma conclusão definitiva. Os questionamentos levantados internamente são apontados como justificativa para o aprofundamento da apuração.

 

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