Ardência ao urinar, urgência e infecções que sempre voltam não devem ser tratadas apenas
com “mais um antibiótico”. A repetição pode esconder cálculos, obstruções e outros
problemas capazes de comprometer os rins.
Por Prof. Dr. Carlos Machado | Nefrologia e Clínica Geral
A infecção urinária aparece, o antibiótico alivia os sintomas e a vida continua. Algumas semanas ou
meses depois, porém, a ardência volta. Muitas pessoas repetem esse ciclo durante anos e passam a
acreditar que “sempre tiveram infecção de urina”.
Isso não é normal.
Quando a infecção retorna, não basta apagar mais um incêndio. É preciso confirmar se realmente
existe uma infecção, identificar a bactéria, verificar por que ela está voltando e descobrir se o
problema está restrito à bexiga ou se já alcançou os rins.
Segundo o nefrologista e clínico geral Prof. Dr. Carlos Machado, o maior perigo é banalizar os
episódios.
“Uma cistite tratada corretamente geralmente não provoca falência renal. O risco aumenta quando a
infecção sobe até os rins, repete-se, é tratada de maneira inadequada ou está associada a cálculos,
obstruções e alterações das vias urinárias. Nesses casos, pode haver cicatrização e perda de função
renal”, alerta o especialista.
A infecção da urina já é também dos rins
A cistite é a infecção localizada na bexiga. Seus sintomas mais comuns são ardência ou dor ao
urinar, vontade frequente de ir ao banheiro, urgência urinária e desconforto na parte inferior do
abdome.
Quando os microrganismos sobem pelos canais que ligam a bexiga aos rins, pode surgir a
pielonefrite: uma infecção renal potencialmente grave.
Febre, calafrios, dor nas costas ou na lateral do corpo, náuseas, vômitos e piora do estado geral são
sinais de que o quadro pode não estar mais restrito à bexiga.
A maioria das infecções renais, quando diagnosticada cedo e tratada corretamente, evolui sem
sequelas. Entretanto, episódios graves ou repetidos podem, em alguns pacientes, provocar cicatrizes
nos rins, infecção generalizada e comprometimento da função renal.
Quando a infecção é considerada recorrente?
Em geral, considera-se que NUNCA devemos ter infecção urinária. Na primeira o tratamento dever
ser muito bem feito para que ela não volte. Se estiver tendo infecção de urina recorrente, PRECISA
de acompanhamento com Nefrologista qualificado para investigar e tratar em definitivo.
Esse padrão exige avaliação. Também é importante distinguir uma nova infecção de uma recaída
causada pela mesma bactéria que não foi completamente eliminada.
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“Receber antibióticos diferentes, sem cultura de urina e sem investigação da causa, pode mascarar
sintomas, selecionar bactérias resistentes e atrasar o diagnóstico correto”, explica o Prof. Dr. Carlos
Machado.
Por que a infecção volta?
A recorrência pode estar relacionada a diferentes fatores, entre eles:
• baixa ingestão de água;
• dificuldade para esvaziar completamente a bexiga;
• cálculos nos rins ou nas vias urinárias;
• aumento da próstata;
• alterações anatômicas do sistema urinário;
• diabetes mal controlado;
• menopausa e alterações da mucosa vaginal;
• uso de sonda urinária;
• relações sexuais associadas aos episódios;
• gravidez;
• doenças que reduzem a imunidade;
• uso inadequado ou repetitivo de antibióticos
• intestino preso ou ressecado.
Em homens, crianças, gestantes, pessoas com doença renal, transplantados e pacientes que
apresentam febre, cálculos ou dificuldade para urinar, a investigação merece atenção especial.
UM DADO IMPORTANTE
Nem toda ardência é infecção urinária.
Inflamações vaginais, infecções sexualmente transmissíveis, irritações locais, alterações da
menopausa, problemas da próstata e outras doenças da bexiga podem produzir sintomas
semelhantes.
Por isso, a cultura de urina tem papel importante nos quadros recorrentes: ela ajuda a confirmar a
presença da bactéria e mostra quais antibióticos podem combatê-la.
Tomar um antibiótico guardado em casa antes de colher o exame pode alterar o resultado e
dificultar a identificação do problema.
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Tratar a infecção e investigar a pessoa
O cuidado não se resume a escolher um antibiótico. A avaliação clínica pode incluir exames de
urina, cultura com teste de sensibilidade, creatinina e cálculo da taxa de filtração dos rins.
Dependendo da idade, dos sintomas, das doenças existentes e do padrão das infecções, o médico
pode solicitar ultrassonografia ou outros exames das vias urinárias. Nem todas as pessoas precisam
de exames de imagem, mas eles podem ser importantes quando há suspeita de cálculo, obstrução,
retenção urinária, alteração anatômica, sangue na urina ou comprometimento renal.
O nefrologista de antigamente era considerado um ótimo clínico geral, pois observa o paciente
como um todo, investigando diabetes, pressão alta, medicamentos, imunidade e outras condições
que podem favorecer as infecções.
O que ajuda a prevenir novas infecções
As medidas devem ser adaptadas a cada pessoa. De maneira geral, é importante:
• beber quantidade adequada de água, salvo quando houver restrição médica;
• não segurar a urina por períodos prolongados;
• tentar esvaziar completamente a bexiga;
• controlar adequadamente o diabetes;
• corrigir constipação intestinal quando presente;
• evitar o uso de antibióticos por conta própria;
• procurar avaliação quando os episódios estiverem relacionados às relações sexuais;
• conversar com o médico sobre medidas específicas após a menopausa;
• investigar cálculos, obstruções e alterações da próstata;
• discutir estratégias preventivas quando as infecções forem comprovadamente recorrentes.
Antibióticos preventivos podem ser indicados em situações selecionadas, mas somente depois de
avaliação individual. O uso desnecessário aumenta o risco de efeitos adversos e de resistência
bacteriana.
Produtos naturais e suplementos também não são automaticamente seguros ou eficazes. Mesmo
opções populares precisam ser analisadas considerando outras doenças, medicamentos e a
qualidade das evidências disponíveis.
Quando procurar ajuda rapidamente, pois já pode ser
Pielonefrite Aguda (alto risco):
Procure atendimento sem demora quando houver:
• febre ou calafrios;
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• dor forte nas costas ou na lateral do corpo;
• náuseas ou vômitos;
• confusão, fraqueza intensa ou sonolência;
• queda da pressão ou sensação de desmaio;
• redução importante da quantidade de urina;
• sangue visível na urina;
• gravidez acompanhada de sintomas urinários;
• piora apesar do tratamento;
• infecção associada a cálculo, obstrução ou doença renal.
Esses sinais podem indicar infecção nos rins, obstrução urinária ou infecção disseminada.
MENSAGEM AO LEITOR
Infecção urinária nunca deve ser aceita como parte normal da vida. Uma cistite isolada,
diagnosticada e tratada corretamente, raramente destrói os rins. O que exige atenção é a repetição, a
infecção que sobe para os rins e a presença de fatores como cálculos, obstruções, diabetes ou
alterações das vias urinárias.
Se a infecção sempre volta, não procure apenas outro antibiótico. Procure a causa.
Cuidar da bexiga também é proteger os rins — e preservar hoje a função renal que você precisará
pelo resto da vida.
Prof. Dr. Carlos Machado — Especialista em Nefrologia e Clínica Geral.
Artigo de divulgação científica.
ESCOLA PAULISTA DE MEDICINA – UNIFESP
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO
PROFESSOR de Medicina em 3 Universidades
Pós-Doutorado – CORNELL UNIVERSITY
MEMORIAL SLOAN-KETTERING CANCER CENTER
Autor do livro: ‘Você é o que você come…’
@DrCarlosMachado (Instagram, Tiktok, Youtube)
Consultório WhatsApp +55 11 94565-1396
Grupo gratuíto de Dicas de Saúde e Perfil profissional: beacons.ai/drcm
