Curiosidade, influência digital e gastronomia internacional ajudam a explicar a popularização de ingredientes nas cozinhas do Brasil
Matcha, kimchi, taro, algas e outros ingredientes que antes circulavam principalmente em cozinhas específicas passaram a aparecer com mais frequência em vídeos, receitas e cardápios. O movimento também abre espaço para sementes e especiarias menos conhecidas no Brasil. Entre elas está o feno grego, usado há séculos em preparações do Oriente Médio e da Índia e que pode ser encontrado em misturas de especiarias como curry.
A expansão desse repertório alimentar combina curiosidade, circulação de referências culturais e facilidade para descobrir ingredientes pela internet antes considerados incomuns, impulsionados por vídeos curtos, receitas e pelo apelo visual dos pratos.
Redes sociais ajudam a transformar ingredientes em tendência
A comida também passou a ocupar um espaço importante no entretenimento digital. Receitas rápidas, vídeos de pessoas experimentando ingredientes desconhecidos e preparações visualmente marcantes ajudam a apresentar sabores de diferentes regiões para quem não teria contato com eles no cotidiano.
Pitaya amarela, matcha, alga nori, kimchi e taro aparecem como alguns exemplos. A lógica vale também para especiarias. Quando um ingrediente aparece repetidamente em receitas, pode despertar a curiosidade de quem acompanha aquele conteúdo.
A influência digital, porém, não explica sozinha a mudança. O crescimento do interesse pela gastronomia internacional também aumenta a procura por ingredientes usados em cozinhas de outros países. Um levantamento da consultoria Mordor Intelligence sobre o mercado de temperos e especiarias aponta a exploração de novos sabores e a inovação em misturas como movimentos que acompanham o setor.
Da gastronomia internacional à despensa brasileira
A circulação de ingredientes estrangeiros não significa necessariamente reproduzir uma receita exatamente como ela é feita em seu local de origem. Ingredientes podem ser adaptados aos produtos disponíveis, ao paladar local e aos hábitos de quem cozinha.
É o que ocorre com diferentes elementos da gastronomia asiática. De acordo com a Data Driva, em 2024 foi registrada a existência de mais de 13 mil restaurantes de comida asiática no Brasil. Isso ajuda a entender o crescimento de ingredientes importados que passaram a fazer parte do abastecimento de restaurantes especializados; entretanto, as preparações podem ser ajustadas às preferências dos consumidores brasileiros.
O feno grego ajuda a visualizar esse processo. A planta tem origem no Oeste da Ásia e no Sudeste da Europa e possui uma longa história de uso culinário. Suas folhas e sementes são aproveitadas em diferentes preparações, embora as sementes sejam particularmente conhecidas pelo uso em misturas de especiarias.
“A utilização culinária e medicamentosa é milenar”, explica Maria Clara Rodrigues Miranda, especialista em fitoterapia, em entrevista ao Estadão. Segundo ela, as folhas podem ser consumidas cruas ou refogadas, enquanto as sementes entram na composição de currys preparados no Brasil e em outros países.
Por que ingredientes pouco conhecidos despertam curiosidade?
Experimentar um ingrediente novo vai além de descobrir um sabor; há também o interesse pela história, pela origem e pela forma como determinado alimento é utilizado em outra cultura.
As chamadas especiarias exóticas reúnem ingredientes com características bastante diferentes. Cardamomo, sumagre, cumaru e folhas de lima-de-Kaffir são alguns exemplos de produtos que aparecem em listas de especiarias pouco conhecidas no Brasil, cada um associado a preparações e tradições culinárias distintas.
Esse movimento também cria uma diferença entre tendência passageira e incorporação ao cotidiano. Um ingrediente pode viralizar e desaparecer rapidamente, enquanto outros encontram espaço por serem versáteis e conseguirem se adaptar a diferentes receitas.
Assim, a popularização de sementes e especiarias pouco conhecidas revela uma mudança na maneira como os consumidores descobrem novos ingredientes. Redes sociais, restaurantes, viagens, receitas internacionais e acesso a ingredientes de diferentes origens ampliam as possibilidades de experimentação. Para quem cozinha, isso significa uma despensa cada vez mais aberta a sabores que, até pouco tempo atrás, estavam distantes do repertório cotidiano.