Com 148,5 mil empregos formais no turismo paranaense, entidades alertam para o risco de aumento dos custos operacionais, dificuldades de contratação e necessidade de adequação das convenções coletivas.
A aprovação da proposta de mudança na escala de trabalho 6×1 acende um sinal de alerta para o setor de bares, restaurantes, hotéis, entretenimento e eventos no Paraná. O segmento tem peso significativo na economia estadual e enfrenta o desafio de manter equipes completas em atividades que exigem atendimento contínuo, inclusive à noite, nos fins de semana e feriados.
Dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego, mostram que o turismo paranaense encerrou 2025 com 148.521 empregos formais, um crescimento de 3,4% em relação ao ano anterior. Desse total, 94.356 postos estavam em serviços de alimentação, segmento que inclui bares, restaurantes, lanchonetes, cafeterias e serviços de catering. Outros 22.161 empregos estavam nas atividades de alojamento, que abrangem hotéis, pousadas e estabelecimentos semelhantes.
As atividades turísticas representam aproximadamente 4% de todo o mercado de trabalho formal do Paraná. Já entre janeiro e novembro de 2025, o setor registrou saldo positivo de 7.830 empregos formais, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED). Os números demonstram a dimensão econômica da atividade e a importância de avaliar cuidadosamente os efeitos de qualquer mudança nas regras de trabalho. (Paraná)
O posicionamento da Associação Brasileira de Bares e Casas Noturnas (Abrabar), da Federação das Empresas de Hospedagem, Gastronomia, Entretenimento, Lazer e Turismo do Paraná (FETURISMO) e do Sindiprom, por meio de seu presidente, Fábio Aguayo, é de preocupação com as consequências práticas da medida.
“Estamos falando de um setor que emprega milhares de pessoas, movimenta a economia e atende a população e os turistas todos os dias. Mas já enfrentamos um verdadeiro caos na contratação de mão de obra. Temos empresas que precisam recorrer a trabalhadores estrangeiros, especialmente venezuelanos, cubanos e profissionais de outras nacionalidades, para conseguir manter suas operações”, alerta Aguayo.
Segundo o dirigente, a discussão sobre a jornada de trabalho precisa considerar a realidade do mercado de trabalho brasileiro. Além da escassez de profissionais disponíveis para contratação formal, os empresários enfrentam a concorrência da informalidade, do trabalho por aplicativos e de outras modalidades de ocupação que oferecem diferentes condições de autonomia e remuneração.
“Não podemos ignorar que uma parcela dos trabalhadores busca alternativas fora do emprego tradicional com carteira assinada. Isso tem diversas razões, mas o resultado para o nosso setor é concreto: está cada vez mais difícil formar equipes, preencher escalas e manter profissionais. Se houver redução da jornada sem que se resolva o problema da disponibilidade de mão de obra, precisaremos contratar mais pessoas ou reorganizar operações que já funcionam no limite”, afirma.
O custo da mudança preocupa
Para bares, restaurantes, hotéis e empresas de eventos, a operação depende de equipes disponíveis em horários variados, incluindo noites, fins de semana e feriados. Uma eventual redução da jornada semanal, sem diminuição proporcional das horas necessárias para manter os estabelecimentos funcionando, poderá exigir novas contratações, pagamento de horas extras ou mudanças nos horários de atendimento.
O impacto poderá ser ainda maior para micro, pequenas e médias empresas, que possuem margens reduzidas e enfrentam despesas crescentes com salários, encargos, energia elétrica, aluguel, insumos e tributos.
A preocupação das entidades é que o aumento dos custos seja repassado aos preços, reduza a capacidade de contratação, limite o funcionamento dos estabelecimentos e, em situações extremas, provoque fechamento de empresas e perda de postos de trabalho.
“Quando olhamos para os números, percebemos a responsabilidade envolvida. Estamos falando de uma cadeia econômica que mantém milhares de empregos formais no Paraná. Precisamos saber como as empresas vão absorver esses custos e como será possível manter o atendimento sem comprometer a saúde financeira dos negócios”, destaca Aguayo.
Convenções coletivas também entram na pauta
Outro ponto de atenção é a necessidade de avaliar as convenções coletivas de trabalho já negociadas pelo setor, especialmente as cláusulas econômicas e sociais que estabelecem condições de jornada, escalas, descansos, horas extras e outros direitos e obrigações entre empregadores e trabalhadores.
Com a eventual implementação de novas regras para a jornada de trabalho, será necessário analisar os instrumentos coletivos vigentes e as negociações futuras para identificar as adequações necessárias à nova realidade.
No Paraná, muitas categorias do setor possuem data-base em maio, enquanto outras realizam suas negociações em junho ou outubro. Isso significa que empresas e entidades sindicais poderão precisar rever planejamentos, avaliar cláusulas já negociadas e discutir eventuais ajustes para garantir a compatibilidade das convenções com as novas disposições legais.
Dependendo do alcance e da vigência das mudanças, poderá ser necessário negociar novas cláusulas ou, quando juridicamente cabível, formalizar termos aditivos às convenções coletivas existentes.
“Não estamos falando apenas de uma mudança na escala de trabalho. Estamos falando de convenções coletivas assinadas, compromissos assumidos, cláusulas econômicas negociadas e planejamento financeiro das empresas. Precisamos avaliar como tudo isso vai funcionar na prática, porque não é possível ignorar os custos e as consequências de uma mudança dessa dimensão”, destaca Aguayo.
Diante desse cenário, a Abrabar, a FETURISMO e o Sindiprom estão preparando uma convocação para reunir representantes das entidades e empresários do setor. O objetivo será discutir os impactos das mudanças, avaliar os encaminhamentos jurídicos e econômicos e organizar as medidas necessárias para a adequação das relações de trabalho.
“Precisamos nos antecipar. Não podemos esperar os problemas aparecerem para depois buscar soluções. Vamos convocar o setor para discutir as convenções coletivas, as cláusulas econômicas e sociais e a necessidade de eventuais termos aditivos. O empresário precisa de segurança jurídica e previsibilidade para continuar investindo, contratando e gerando empregos”, afirma o dirigente.
Uma decisão que exige responsabilidade
Aguayo também questiona a forma e o momento em que a proposta foi aprovada, apontando o risco de decisões de grande impacto econômico serem conduzidas sem tempo suficiente para uma avaliação aprofundada de suas consequências.
“Estamos falando de uma mudança estrutural que afeta trabalhadores e empresas. Não se pode tratar um tema dessa dimensão como uma decisão simples, tomada às pressas, sem ouvir adequadamente quem terá de cumprir as novas regras e sem apresentar estudos claros sobre seus impactos. A proximidade do segundo turno eleitoral também levanta questionamentos sobre o uso político de uma pauta tão sensível”, avalia.
Para o dirigente, transformar uma discussão complexa sobre relações de trabalho em uma promessa de efeito imediato, sem esclarecer como os custos serão absorvidos pela economia, pode criar expectativas que não correspondam à realidade enfrentada por trabalhadores e empregadores.
O setor não pode ser ignorado
Abrabar, FETURISMO e Sindiprom defendem que qualquer alteração na jornada de trabalho considere as particularidades de cada atividade econômica, a capacidade de adaptação das empresas e os efeitos sobre o emprego formal.
As entidades também consideram fundamental discutir medidas de qualificação profissional, incentivo à contratação formal, redução dos entraves ao empreendedorismo e políticas que ampliem a disponibilidade de trabalhadores para os setores que mais precisam contratar.
“Não somos contra a melhoria das condições de trabalho. O que defendemos é responsabilidade, diálogo e viabilidade econômica. Não adianta aprovar uma medida que, na teoria, parece beneficiar o trabalhador, mas que, na prática, pode elevar os preços, reduzir vagas formais e colocar em risco empresas que geram emprego e renda. O futuro do setor exige planejamento, não improvisação”, conclui Fábio Aguayo.
O posicionamento das entidades é de cautela diante das mudanças e de defesa de um debate que reúna trabalhadores, empresários e representantes do poder público, com transparência sobre os custos, os prazos de adaptação e as consequências para o mercado de trabalho.