O chamado prêmio de prazo no mercado de títulos dos Estados Unidos alcançou o maior nível em 12 anos, segundo dois modelos que acompanham o indicador. A alta, que não era observada desde a primavera de 2014, acendeu um sinal de alerta entre investidores e economistas que monitoram o custo extra de se aplicar em papéis de longo prazo em comparação com a rolagem de títulos curtos.
Na prática, o prêmio de prazo estima quanto o mercado cobra a mais para emprestar dinheiro por uma década em vez de renovar aplicações de curto prazo repetidamente. Quando o indicador sobe, a leitura mais direta é que os investidores enxergam mais risco em manter posições longas. Segundo analistas, o movimento pode refletir tanto um aumento real de risco quanto uma maior aversão dos agentes ao risco.
Entre as explicações levantadas para a alta estão as incertezas em torno da inteligência artificial, cujos gastos somam trilhões de dólares e vêm remodelando a economia de formas difíceis de prever. O Fundo Monetário Internacional afirmou nesta terça-feira que o avanço da dívida pública no mundo está se tornando insustentável, enquanto políticas populistas ganham espaço tanto à esquerda quanto à direita. A guerra no Irã também reacendeu a inflação global, e o presidente Donald Trump deixou em aberto a possibilidade de retomar ataques dos EUA ao Irã após as eleições de meio de mandato.
Economistas alertam, no entanto, que o prêmio de prazo não mede necessariamente o risco real. Para Thierry Wizman, do Macquarie Group, um prêmio mais alto não implica risco maior, podendo apenas indicar maior aversão ao risco. Joe Brusuelas, economista-chefe da RSM US, afirmou que os profissionais de mercado devem manter a humildade em relação à geopolítica e que os modelos frequentemente ficam para trás diante dessas dinâmicas. Neil Shearing, da Capital Economics, observou que é difícil identificar com precisão o que determina o indicador.
Também há a possibilidade de que o movimento recente decorra de fatores técnicos, como o reequilíbrio de carteiras de grandes fundos no fim do terceiro trimestre, sem relação direta com Irã, inteligência artificial ou dívida. A inflação nos EUA está acima da meta de 2% do Federal Reserve há cinco anos. Nigel Green, CEO do DeVere Group, disse que os preços parecem estáveis, mas os investidores vêm buscando proteção de forma discreta, e que más notícias podem provocar oscilações bruscas quando todos estão nervosos e os preços não se ajustaram.