Casos em Curiúva, Fazenda Rio Grande, Almirante Tamandaré e o cancelamento do FCCA acendem alerta no setor. Enquanto eventos são suspensos por falta de convênios, dificuldades financeiras e riscos climáticos, contratações da Secretaria de Estado do Turismo, que somam dezenas de milhões de reais, são alvo de questionamentos nos órgãos de controle.
O cancelamento de eventos em diferentes municípios do Paraná começa a levantar preocupações sobre o planejamento da atividade turística, a previsibilidade dos recursos públicos e o cumprimento dos compromissos assumidos com empresas, fornecedores e trabalhadores.
Em poucos dias, vieram a público decisões envolvendo a FESCAETÊ, em Curiúva; a ExpoFazenda, em Fazenda Rio Grande; a Festa do Morango, em Almirante Tamandaré; e o FCCA, cuja não realização em 2026 foi anunciada pela Associação Paranaense das Microcervejarias (PROCERVA).
Embora os motivos apresentados pelas administrações públicas e pelos organizadores sejam diferentes, os episódios colocam uma questão em evidência: como garantir a continuidade dos eventos e a segurança dos compromissos assumidos quando surgem dificuldades com convênios, incertezas financeiras e mudanças de planejamento?
O debate ganha dimensão ainda maior diante dos questionamentos sobre as contratações da Secretaria de Estado do Turismo do Paraná (SETU), que se tornaram objeto de procedimentos nos órgãos de controle e de reportagens sobre o crescimento das despesas com estruturas, estandes e espaços em eventos.
O presidente da Federação das Empresas de Hospedagem, Gastronomia, Entretenimento, Lazer e Turismo do Paraná (FETURISMO) e do Sindicato das Empresas de Promoção, Organização e Montagem de Feiras, Congressos e Eventos do Paraná (SINDIPROM), Fábio Aguayo, manifesta preocupação com o cenário e cobra transparência, planejamento e responsabilidade na condução dos recursos públicos.
“Por trás de cada evento existem empresas contratadas, trabalhadores mobilizados, fornecedores, prestadores de serviços, investimentos realizados e compromissos assumidos com antecedência. Quando uma programação é cancelada, os prejuízos não ficam restritos aos organizadores. Toda uma cadeia econômica é atingida. Precisamos entender o que está acontecendo e saber quais garantias existem para os compromissos já assumidos”, afirma Aguayo.
Curiúva: convênio estadual de R$ 500 mil não foi assinado
Em Curiúva, a Prefeitura anunciou o cancelamento da FESCAETÊ 2026, prevista para os dias 30 e 31 de outubro e 1º de novembro, durante as comemorações dos 79 anos do município.
Segundo a administração municipal, a realização do evento dependia de um convênio estadual de R$ 500 mil, por meio da SETU, destinado à estrutura, aos shows e aos brinquedos gratuitos previstos na programação.
De acordo com o comunicado divulgado pela Prefeitura, o convênio, vinculado ao protocolo nº 25.859.587-4, não foi assinado pelo Governo do Estado. A administração municipal relatou tentativas de solucionar o impasse, inclusive com contatos junto a órgãos estaduais e parlamentares, mas informou que não conseguiu viabilizar os recursos dentro do prazo necessário.
O cancelamento atingiu uma programação que envolvia a população, produtores locais, comerciantes, patrocinadores e outros participantes.
O caso levanta uma questão objetiva: quando uma programação depende de recursos estaduais, quais são as garantias de que o convênio será formalizado dentro do prazo necessário para a contratação de serviços e a organização do evento?
Fazenda Rio Grande: ExpoFazenda é cancelada e recursos serão destinados a outras áreas
Em Fazenda Rio Grande, na Região Metropolitana de Curitiba, a Prefeitura anunciou o cancelamento da ExpoFazenda 2026, que estava prevista para os dias 3 a 6 de dezembro.
A administração municipal justificou a decisão com base nos riscos de chuvas intensas e de eventos climáticos adversos associados ao fenômeno El Niño. Também anunciou que os recursos inicialmente destinados à feira serão redirecionados para investimentos em saúde e infraestrutura, incluindo o atendimento de uma fila superior a 20 mil exames médicos.
O município também havia alterado anteriormente o planejamento da feira, que chegou a ser adiada antes de ser reagendada para dezembro.
A segurança do público, dos trabalhadores, dos expositores e dos artistas deve ser uma prioridade. Entretanto, o episódio abre uma discussão sobre a necessidade de planejamento antecipado, avaliação técnica dos riscos e definição de alternativas para que as decisões não sejam tomadas apenas quando os organizadores e fornecedores já estão mobilizados.
Para o setor de eventos, o desafio é conciliar a segurança da população com a previsibilidade necessária para a realização de atividades que movimentam a economia local.
Almirante Tamandaré: Festa do Morango também é cancelada
Outro caso que reforça o alerta é o cancelamento da Festa do Morango 2026, em Almirante Tamandaré, anunciado em 23 de outubro.
A festa estava programada para os dias 6, 7 e 8 de novembro. Segundo reportagem do Portal Nosso Dia, a decisão foi formalizada por decreto assinado pelo prefeito Daniel Lovato e levou em consideração os riscos de tempestades severas, a situação de emergência no município e as incertezas financeiras.
De acordo com a publicação, a Defesa Civil recomendou a suspensão das festividades diante da possibilidade de chuvas volumosas e rajadas de vento de alta intensidade. O município também manifestou preocupação com possíveis atrasos na liberação de emendas parlamentares, convênios e outros repasses, em meio ao período de transição dos governos federal e estadual.
A Prefeitura informou que os valores inicialmente previstos para o evento serão reavaliados e poderão ser destinados a áreas como saúde, educação, infraestrutura urbana e drenagem, observados os procedimentos legais e orçamentários.
O caso apresenta uma combinação de fatores climáticos e financeiros que precisa ser considerada com cuidado. Não é possível atribuir o cancelamento exclusivamente à situação financeira, mas a própria administração municipal reconhece que a incerteza sobre os repasses pesou na decisão.
Para Aguayo, o episódio reforça a necessidade de previsibilidade e de comunicação antecipada com todos os envolvidos.
“Quando existem riscos climáticos, a segurança precisa vir em primeiro lugar. Mas, quando também existem incertezas financeiras, é necessário esclarecer quais recursos estão disponíveis, quais compromissos foram assumidos e quais alternativas foram avaliadas. O setor precisa de planejamento para não ser surpreendido quando já realizou investimentos”, afirma.
PROCERVA cancela o FCCA por falta do apoio necessário
A preocupação não se limita aos eventos organizados pelas administrações municipais.
Em comunicado de 14 de outubro, a Associação Paranaense das Microcervejarias (PROCERVA) informou que não realizará o FCCA em 2026. A entidade declarou que, apesar dos esforços para viabilizar a programação, a ausência do apoio necessário do Poder Público comprometeu a realização do evento nos moldes planejados.
A associação também destacou a importância das parcerias institucionais e das condições necessárias para preservar a qualidade e a segurança da programação.
A decisão reforça a preocupação de que eventos organizados pela iniciativa privada, mas dependentes de parcerias institucionais, também podem enfrentar dificuldades quando as condições inicialmente esperadas não se concretizam.
O problema, portanto, ultrapassa a organização de uma festa específica. Envolve a confiança entre os organizadores, o Poder Público e toda a cadeia de empresas que trabalha para viabilizar os eventos.
SETU: contratações de R$ 56,2 milhões são alvo de questionamentos
Enquanto municípios anunciam cancelamentos e organizadores relatam dificuldades para viabilizar programações, a gestão dos recursos estaduais destinados à promoção do turismo também está sob questionamento.
Reportagem publicada pela Gazeta do Paraná em 20 de agosto de 2026 informou que um levantamento identificou 364 contratações diretas da Secretaria de Estado do Turismo do Paraná (SETU), relacionadas à locação de espaços, estandes, mobiliário e estruturas para eventos, totalizando R$ 56,2 milhões.
Segundo a publicação, 351 dessas contratações — 96,4% do conjunto analisado — apresentavam valores múltiplos exatos de R$ 5 mil.
O levantamento também apontou um crescimento expressivo das contratações: os valores passaram de R$ 9,49 milhões em 2025 para R$ 46,71 milhões até 11 de agosto de 2026.
A reportagem informou ainda que, quando consideradas as autorizações de recursos destinadas ao serviço social autônomo Viaje Paraná, o conjunto analisado alcançava R$ 59,7 milhões em 2026, até agosto.
Os dados integram questionamentos encaminhados ao Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR), ao Ministério Público do Paraná e à Justiça estadual. O processo registrado no TCE sob o número 499290/26 trata de questões relacionadas à legalidade, à economicidade, à transparência e aos critérios utilizados nas contratações.
Outro levantamento citado pela imprensa identificou R$ 24,2 milhões em contratos concentrados nos meses de maio e junho de 2026.
Esses números justificam o aprofundamento da análise sobre a distribuição dos recursos, os critérios de escolha dos eventos, a formação dos preços, as contrapartidas entregues e a execução dos contratos.
É importante ressaltar que a existência de questionamentos ou de um processo de apuração não significa que as contratações sejam ilegais. A avaliação depende da análise dos documentos e das explicações dos órgãos responsáveis.
A questão que se coloca para o setor, entretanto, é legítima: como foram planejados os investimentos, quais compromissos financeiros foram assumidos e que garantias existem para a continuidade da programação turística?
Concentração de despesas no período eleitoral exige transparência
A concentração de contratações em determinados meses de 2026 também levanta questionamentos sobre o planejamento dos gastos públicos durante o ano eleitoral.
Os dados divulgados apontam que maio e junho concentraram R$ 24,2 milhões em contratos analisados no levantamento apresentado aos órgãos de controle. A proximidade do calendário eleitoral torna importante esclarecer os critérios utilizados na distribuição dos recursos, a finalidade de cada contratação e os resultados efetivamente alcançados.
Para Aguayo, a discussão deve ser conduzida com base em documentos, informações públicas e esclarecimentos oficiais.
“Se houve concentração de recursos e contratações em um curto período, precisamos saber quais foram os critérios utilizados, como esses gastos foram planejados e se houve previsão orçamentária suficiente para cumprir os compromissos assumidos. O setor não pode ficar sem respostas justamente quando empresas e trabalhadores precisam de segurança para organizar suas atividades”, afirma.
O dirigente defende que a SETU apresente informações claras sobre a programação, os contratos firmados, os pagamentos realizados e os compromissos ainda pendentes.
“Não basta anunciar investimentos. É necessário demonstrar como os recursos foram utilizados, quais resultados foram entregues e se o planejamento financeiro permite honrar os compromissos assumidos. A sociedade tem o direito de acompanhar a aplicação do dinheiro público”, acrescenta.
A cobrança não parte da conclusão de que as despesas investigadas tenham causado os cancelamentos. O que se busca é esclarecer se existe alguma relação entre o planejamento financeiro, a execução dos recursos públicos e as dificuldades relatadas por municípios e organizadores.
Essa distinção é essencial para que a discussão seja conduzida com seriedade e para que eventuais responsabilidades sejam apuradas com base em evidências.
Saúde é prioridade permanente, mas cultura, lazer e entretenimento também são essenciais
Outro ponto levantado pelo presidente da FETURISMO e do SINDIPROM é a utilização de investimentos em saúde e infraestrutura como justificativa para redirecionar recursos inicialmente previstos para eventos.
Aguayo reconhece que saúde, segurança e educação são prioridades permanentes da administração pública. O questionamento é por que essas necessidades aparecem, em determinados momentos, como justificativa para retirar recursos de programações que já estavam sendo planejadas.
“É evidente que saúde, segurança e educação são prioridades. Sempre foram e precisam continuar sendo. Mas precisamos fazer uma pergunta: por que essas áreas aparecem agora como justificativa para retirar recursos de eventos? Essas necessidades não surgiram ontem. A responsabilidade com as áreas prioritárias precisa existir durante todo o ano, com planejamento e decisões tomadas com antecedência”, argumenta.
Para o dirigente, não se trata de colocar a saúde em oposição à cultura, ao lazer, ao entretenimento e ao turismo.
“Uma sociedade precisa de saúde, segurança e educação, mas também precisa de cultura, lazer, entretenimento e momentos de convivência. Os eventos não são apenas festas. Eles movimentam hotéis, restaurantes, bares, transportadoras, empresas de montagem, equipes técnicas, artistas, comerciantes e milhares de trabalhadores. Existe uma cadeia econômica inteira por trás de cada programação”, ressalta.
O dirigente defende que os orçamentos públicos considerem os efeitos econômicos e sociais das decisões, com critérios claros para a distribuição dos recursos.
“Não estamos defendendo gastos irresponsáveis ou eventos realizados a qualquer custo. Estamos defendendo planejamento, transparência e critérios claros. Se os recursos são limitados, precisamos saber como foram distribuídos, quais compromissos foram assumidos e por que determinadas decisões estão sendo tomadas agora”, acrescenta.
Se o El Niño é a justificativa, como ficam os grandes eventos de verão?
As justificativas climáticas também precisam ser examinadas com responsabilidade.
Em Fazenda Rio Grande e Almirante Tamandaré, as administrações municipais apontaram riscos meteorológicos e a necessidade de preservar a segurança do público.
Aguayo ressalta que a segurança deve prevalecer, mas considera necessário avaliar cada situação com base em informações técnicas, protocolos preventivos e condições específicas de cada evento.
“Se existe risco climático, precisamos de planejamento, informações técnicas, protocolos de segurança e medidas preventivas. Não podemos transformar uma previsão meteorológica em justificativa automática para cancelar eventos sem avaliar cada situação. Se esse raciocínio for aplicado indistintamente, teremos de questionar também a realização do Verão Maior e de outras grandes programações. É preciso analisar cada caso com responsabilidade”, afirma.
A comparação não significa que todos os eventos apresentem os mesmos riscos ou que devam ser realizados independentemente das condições climáticas. O questionamento é sobre a necessidade de critérios técnicos consistentes, planejamento e transparência nas decisões.
Temporada de verão: quem vai garantir os compromissos assumidos?
A proximidade da temporada de verão torna a discussão ainda mais urgente, especialmente para o litoral paranaense, onde hotéis, bares, restaurantes, empresas de eventos e prestadores de serviços dependem de planejamento antecipado.
A realização de grandes programações exige contratações, compra de materiais, montagem de estruturas, organização de equipes e investimentos que não podem ser improvisados de última hora.
“Não podemos chegar à temporada de verão sem saber quais programações estão garantidas, quais convênios foram formalizados e quais compromissos financeiros serão honrados. Há empresas que investem recursos próprios, contratam funcionários e assumem obrigações acreditando que o planejamento anunciado será cumprido. Precisamos de segurança e previsibilidade”, alerta Aguayo.
Para o dirigente, é fundamental que o Poder Público esclareça quais recursos estão efetivamente disponíveis, quais convênios foram assinados, quais contratos foram formalizados e quais pagamentos ainda precisam ser realizados.
Também é necessário que as entidades representativas do setor participem do diálogo institucional, contribuindo para soluções que preservem a atividade econômica e respeitem as prioridades sociais.
Responsabilidade fiscal exige planejamento, não improvisação
A discussão sobre os cancelamentos precisa ir além da decisão de realizar ou suspender uma festa.
O Poder Público tem a responsabilidade de administrar os recursos com eficiência, atender às necessidades essenciais da população e estabelecer prioridades orçamentárias. Ao mesmo tempo, precisa considerar os efeitos de suas decisões sobre as empresas, os trabalhadores e as economias locais.
O cancelamento de um evento pode evitar determinadas despesas, mas também pode gerar perdas para fornecedores, comerciantes, produtores, prestadores de serviços e profissionais que se organizaram para trabalhar.
“Não adianta olhar apenas para o valor que se deixa de gastar com um evento sem avaliar o impacto econômico da decisão. Precisamos considerar os empregos envolvidos, os serviços contratados, a renda gerada e os compromissos já assumidos. O Poder Público precisa demonstrar que existe planejamento, e não simplesmente transferir os custos de suas decisões para as empresas e os trabalhadores”, afirma Aguayo.
O presidente da FETURISMO e do SINDIPROM defende transparência na aplicação dos recursos públicos, critérios objetivos para a realização de parcerias e comunicação antecipada sobre eventuais mudanças nas programações.
O objetivo não é exigir que todos os eventos sejam realizados independentemente das condições financeiras ou de segurança, mas assegurar que as decisões sejam fundamentadas, previsíveis e acompanhadas de informações claras.
Afinal, quantos outros eventos serão cancelados?
Os casos de Curiúva, Fazenda Rio Grande, Almirante Tamandaré e o cancelamento do FCCA demonstram que as dificuldades enfrentadas pelos organizadores precisam ser examinadas com atenção.
Os motivos apresentados são diferentes, envolvendo falta de formalização de convênios, riscos climáticos, situações de emergência e incertezas financeiras. Não há, até aqui, elementos suficientes para afirmar que todos os cancelamentos tenham uma causa comum.
Entretanto, a sucessão de episódios, somada aos questionamentos sobre a gestão dos recursos estaduais destinados ao turismo, torna necessária uma prestação de contas mais ampla.
Quantos eventos ainda serão cancelados até o fim do ano? Quais compromissos já assumidos serão honrados? Os recursos anunciados estão efetivamente disponíveis? E como o Paraná pretende conciliar as prioridades sociais com a manutenção de uma atividade econômica que gera empregos, renda e desenvolvimento?
Para Fábio Aguayo, essas respostas precisam chegar antes que novas empresas e trabalhadores sejam prejudicados.
“Não podemos tratar o cancelamento como algo sem consequências. Cada evento envolve planejamento, trabalho e expectativas de toda uma cadeia produtiva. O Paraná precisa de responsabilidade fiscal, mas também de responsabilidade econômica e social. Saúde, segurança e educação devem ser prioridades permanentes, enquanto cultura, lazer, entretenimento e turismo precisam ser reconhecidos por sua importância para a sociedade e para a economia. O que defendemos é equilíbrio, transparência e respeito aos compromissos assumidos”, conclui.