Thiago S. Busato, presidente da SBOT-PR, e Luiz Otavio Almeida, gerente de musculação da Cia Athletica Curitiba, destacam que a retomada gradual e a continuidade dos exercícios são fundamentais para alcançar resultados com saúde
O calendário se aproxima de novembro, as festas de fim de ano entram nos planos e surge a promessa: ainda dá tempo de entrar em forma para o verão! Para quem passou meses longe dos exercícios, a vontade de “correr atrás do prejuízo” pode se transformar em treinos diários, corridas sem preparo e cargas acima da capacidade atual. O problema é tentar resolver em poucas semanas o que depende de adaptação e continuidade. Nesse caminho, dores nos joelhos, tornozelos e costas, especialmente na região lombar, podem interromper a mudança de hábitos antes mesmo das férias.
“O corpo não acompanha a urgência do calendário. Músculos, tendões e articulações precisam de adaptação às cargas do exercício. Quando a pessoa atropela essas etapas, pode desenvolver dores e lesões que acabam interrompendo justamente a atividade que deveria trazer saúde”, afirma o ortopedista Thiago S. Busato, presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, Regional Paraná (SBOT-PR).
Para Luiz Otavio Almeida, gerente de musculação da Cia Athletica Curitiba, transformar a motivação inicial em uma rotina possível é uma das principais tarefas na retomada. “Quem chega querendo compensar o ano inteiro precisa entender que o primeiro passo é construir uma rotina que consiga manter. A avaliação e o acompanhamento ajudam a ajustar os exercícios, as cargas e os intervalos à condição de cada aluno. Treinar até a exaustão logo no começo pode dificultar a recuperação e a continuidade”, explica.
O desafio de manter uma vida ativa vai além da estação. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, do IBGE, 40,3% dos adultos brasileiros eram insuficientemente ativos, considerando as atividades no lazer, no trabalho e no deslocamento para o trabalho. No cenário mundial, uma análise publicada em 2024 apontou que 31% dos adultos — aproximadamente 1,8 bilhão de pessoas — não atingiram os níveis recomendados de atividade física em 2022.
Sair da inatividade é uma mudança positiva. Para que ela se sustente, porém, a intensidade precisa acompanhar o preparo. A Organização Mundial da Saúde reforça que alguma atividade é melhor do que nenhuma e que todo movimento conta. A recomendação para adultos inclui de 150 a 300 minutos semanais de atividade aeróbica moderada, ou o equivalente em atividade vigorosa, além de fortalecimento muscular em pelo menos dois dias da semana. Esse volume deve ser construído de maneira gradual por quem está começando.
“Quem passou um período parado não deve voltar imediatamente ao ritmo que tinha antes, nem acompanhar o treino de outra pessoa. Começar a correr no parque e aumentar distância, velocidade e frequência de uma só vez pode ultrapassar a capacidade de adaptação do corpo”, alerta Busato.
Na musculação, a mesma lógica vale para o aumento das cargas, do número de exercícios e da frequência semanal. Almeida destaca que o treino precisa considerar o histórico de atividade física, eventuais limitações e o tempo disponível para a recuperação.
“O aluno não precisa sair de cada treino completamente esgotado para ter resultado. É possível progredir respeitando a execução dos movimentos e a resposta do organismo. Uma rotina bem orientada, que cabe na vida da pessoa, tem mais chance de continuar depois do verão”, afirma.
Busato também chama a atenção para a tentativa de normalizar qualquer dor como parte do processo. “Dor persistente, inchaço ou dificuldade para apoiar o membro merecem avaliação, não insistência. Se a pessoa começa a mudar a forma de caminhar ou de executar um exercício para suportar a dor, o treino precisa ser revisto”, orienta.
A pressão por resultados rápidos pode ultrapassar os limites da academia e chegar à automedicação. Canetas para emagrecimento, comprimidos e fórmulas anunciadas como soluções fáceis exigem atenção, principalmente quando são utilizados sem avaliação médica ou comprados por canais de procedência desconhecida.
Em fevereiro de 2026, a Anvisa reforçou o alerta para o risco de pancreatite aguda associado ao uso de medicamentos agonistas do receptor GLP-1, classe que inclui substâncias presentes nas chamadas canetas emagrecedoras. A agência ressalta que os benefícios continuam superiores aos riscos nas indicações aprovadas, mas que o uso exige prescrição e acompanhamento. A venda desses medicamentos está sujeita à retenção de receita desde junho de 2025.
O Conselho Federal de Medicina e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia também destacam a importância de verificar quem produz, quem prescreve e onde o medicamento é adquirido. Em tratamentos indicados para obesidade e diabetes, esses recursos podem trazer benefícios importantes, dentro de um acompanhamento individualizado.
As recomendações de redes sociais tampouco substituem esse cuidado. Copiar a dose usada por um influenciador, combinar produtos ou seguir um treino sem considerar a própria condição de saúde deixa de fora informações essenciais para uma decisão segura.
“Emagrecer não significa, automaticamente, ganhar condicionamento. É preciso preservar a musculatura, que participa da estabilidade e do funcionamento das articulações. O objetivo deve ser ganhar saúde e capacidade de movimento, não apenas reduzir o número na balança”, ressalta Busato.
Para Almeida, o melhor resultado do projeto verão é a construção de um hábito que permaneça nas outras estações. “O verão pode ser o incentivo para começar. O que sustenta a evolução é continuar em fevereiro, no inverno e nos meses seguintes, com orientação e ajustes ao longo do caminho. A meta precisa incluir disposição, força e autonomia para o ano inteiro”, conclui.
Fonte e foto: Assessoria de Imprensa.