Estudo internacional aponta desperdício milionário no tratamento de câncer de próstata avançado no SUS

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Análise revela que recursos poderiam ampliar acesso a terapias mais eficazes sem aumento de custos totais

 

Uma publicação recente no periódico científico JCO Global Oncology colocou o Brasil em destaque no debate global sobre eficiência no uso de recursos públicos em saúde. O estudo analisou sete anos de tratamento de pacientes com câncer de próstata resistente à castração metastático no Sistema Único de Saúde, entre 2017 e 2023, e trouxe à tona um cenário que combina avanços terapêuticos com desafios importantes na gestão baseada em evidências.
Ao todo, foram avaliados 38.851 pacientes, revelando que, embora a maioria tenha recebido terapias com benefício comprovado em sobrevida, cerca de 19% ainda foram tratados com opções sem evidência de ganho clínico relevante. O dado chama atenção especialmente porque o custo por paciente entre essas terapias é semelhante, o que indica um potencial de readequação de recursos sem impacto financeiro adicional.
O levantamento aponta que o gasto total com tratamento sistêmico nesse estágio da doença ultrapassou US$ 333 milhões no período analisado. Desse montante, aproximadamente US$ 63,3 milhões foram direcionados a terapias sem benefício comprovado em sobrevida. Para especialistas, esse cenário evidencia uma oportunidade concreta de melhorar a eficiência do sistema, priorizando tratamentos mais eficazes e alinhados às melhores práticas científicas.
A análise sugere que a realocação desses recursos poderia ampliar o acesso a alternativas mais efetivas, como a quimioterapia cabazitaxel genérica, sem elevar o custo global. Em um dos cenários exploratórios, os autores indicam que o valor gasto com terapias de baixo impacto para um único paciente poderia financiar o tratamento de até dois pacientes com opções mais eficazes dentro do mesmo orçamento.
A pesquisa reforça a importância de discutir não apenas o acesso, mas também o valor em saúde, especialmente em sistemas públicos com restrições orçamentárias. Revisão de protocolos, aprimoramento de diretrizes terapêuticas e qualificação das compras públicas aparecem como caminhos fundamentais para aumentar a eficiência e garantir melhores desfechos clínicos.
A TechTrials teve papel central na viabilização do estudo, fornecendo a base tecnológica para análise dos dados. Por meio da plataforma TT Disease Explorer, foi possível estruturar grandes volumes de dados públicos, eliminar duplicidades e transformar informações complexas em inteligência aplicada à pesquisa e à gestão em saúde.
Segundo Dr Fernando Sabino Marques Monteiro, autor principal do estudo, a iniciativa demonstra como o uso estratégico de dados pode transformar a tomada de decisão no setor público. “Esta publicação mostra que, mesmo em um ambiente de forte restrição orçamentária, o Brasil pode melhorar o acesso ao tratamento do câncer de próstata avançado com base em evidência robusta, realocando recursos para terapias de maior valor clínico. A contribuição da TechTrials foi transformar dados públicos complexos em inteligência aplicada para pesquisa de alto impacto prático e, potencialmente, para políticas públicas mais eficientes”, afirma.
Além do impacto nacional, o estudo também ganha relevância internacional ao posicionar o Brasil como um modelo para países de renda baixa e média. A combinação de grande escala populacional, alta demanda assistencial e necessidade constante de decisões mais racionais em saúde faz do país um importante laboratório para soluções que podem ser replicadas globalmente.
Apesar dos achados, os próprios autores destacam limitações inerentes ao uso de bases administrativas retrospectivas e reforçam que a realocação de recursos para terapias como o cabazitaxel representa um potencial teórico máximo, já que nem todos os pacientes seriam elegíveis para esse tipo de tratamento. Ainda assim, o estudo consolida uma mensagem clara: alinhar eficiência econômica e benefício clínico é essencial para ampliar o acesso e melhorar o cuidado em saúde pública.

Sobre: Fernando Sabino Marques Monteiro, MD, PhD
Oncologista Clínico Hospital Sírio-Libanês – Brasília/DF
Doutor pela PUCRS
Professor da Pós Graduação do Hospital Sirio Libanes
Diretor Científico LACOG-GU
Membro do Comitê Científico de Dados de Vida Real da SBOC

 

 

 

Fonte e foto: Assessoria de Imprensa.

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