A coragem de dizer não

A coragem de dizer não

Por Gabriele das Neves Pinheiro

Advogada Criminalista – OAB/RS 120.949

Quantas vezes você já disse “sim” quando, na verdade, queria dizer “não”?

Sorrir e demonstrar afeto por educação. Evitar conflitos. Não magoar as pessoas. Essas lições, historicamente, recaíram de forma muito mais intensa sobre as meninas, acompanhando-as, muitas vezes, na fase adulta.

Enquanto muitas meninas aprenderam a evitar conflitos, muitos meninos foram incentivados a ocupar espaços, assumir riscos e insistir para alcançar seus objetivos. Quando esse aprendizado não vem acompanhado do respeito aos limites do outro, surgem relações profundamente desequilibradas.

Diante desse cenário, é preciso advertir que nenhuma mulher é responsável pela violência que sofre. A responsabilidade é sempre de quem escolhe praticá-la. Ainda assim, fortalecer-se para reconhecer seus próprios limites e comunicá-los é uma poderosa forma de proteção.

Existem violências que não iniciam com tapas e socos, mas com a violação silenciosa de limites. Quando há espaço para a humilhação e para a manipulação, por exemplo, abre-se um portal de dor e sofrimento que muitas vezes é naturalizado justamente por não deixar marcas visíveis.

Infelizmente, ainda há uma grande confusão entre demonstrar gentileza e renunciar aos próprios limites, o que acaba criando um ambiente confortável para que violências silenciosas sejam cada vez mais praticadas ou evoluam para ações ainda mais graves.

Aprender a reconhecer o próprio valor, estabelecer limites e comunicá-los não impede que alguém seja vítima de violência, afinal, nenhuma postura individual é capaz de controlar a escolha criminosa de outra pessoa. Mas esse fortalecimento pode facilitar a identificação de comportamentos abusivos e reduzir a permanência em ciclos de violência.

Propiciar reflexões e buscar formas de se proteger é algo que esta autora tem feito e abordado em palestras e grupos de reflexões, afinal, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que quase uma em cada três mulheres sofreu violência por parte de seu próprio companheiro ou violência sexual de uma pessoa desconhecida, é um claro sinal de que precisamos pensar em alternativas para modificar essa realidade.

Na prática na advocacia criminal, é comum encontrar histórias em que, de um lado, havia alguém que, por medo, culpa ou dependência emocional, foi renunciando aos próprios limites; e, de outro, alguém que se acostumou a ultrapassá-los sem enfrentar consequências.

E por falar em consequências, as leis permitem a aplicação de diversas penalidades a essas pessoas que insistem em ignorar quando recebem um “não”. Conhecer esses instrumentos legais também é uma forma de proteção, pois, embora não seja impeditivo para toda forma de violência, fortalece quem precisa reconhecer quando um limite deixou de ser apenas um desconforto para se tornar uma violação de direitos.

Em um mundo ideal, nenhuma mulher precisaria criar estratégias para se proteger.  Mas em um mundo ideal, o Brasil também não ocuparia o 5º lugar no ranking mundial de feminicídios, os principais agressores de mulheres não seriam seus próprios parceiros ou ex-companheiros e o lar seria o local mais seguro para uma mulher estar.

A mudança que se busca passa pela responsabilização de quem agride, mas também pelo empoderamento de quem, por muito tempo, foi ensinado a silenciar. Esta autora inclina-se ao pensamento de que, talvez, o maior desafio não seja apenas aprender a dizer “não”, mas seja construir uma sociedade em que nenhuma mulher precise ter coragem para fazê-lo.

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