A Faculdade Ensina Direito, A Advocacia Ensina o Resto

Hoje, dia 11 de agosto, Dia do Advogado, eu poderia escrever sobre leis, tribunais, decisões importantes ou sobre a responsabilidade de exercer uma profissão que, muitas vezes, entra na vida das pessoas em seus momentos mais difíceis.

Mas, depois de quase dez anos advogando, percebi que talvez as maiores lições da advocacia não estejam nos códigos. ESTÃO NAS PESSOAS. Então, em vez de falar sobre o que é ser advogado, resolvi falar sobre algumas coisas que a advocacia me ensinou ao longo desses anos.

1. Nem todo bom advogado é aquele que briga até o fim.

No começo da carreira, é fácil acreditar que advogar bem significa lutar por cada centímetro, responder tudo, recorrer de tudo e nunca recuar. Com o tempo, aprendi que existem batalhas que precisam ser travadas e outras que só prolongam sofrimento.

No Direito de Família, isso fica ainda mais evidente. Nem todo acordo é derrota. Nem toda concessão é fraqueza. E nem todo processo precisa virar uma guerra.

2. O cliente nem sempre precisa ouvir o que quer. Precisa ouvir o que é necessário.

Talvez uma das partes mais difíceis da profissão seja dizer “não”. Não para uma tese impossível. Não para uma vingança disfarçada de estratégia. Não para uma expectativa que o Judiciário provavelmente não conseguirá atender. Advogar também é administrar expectativa.

3. Ganhar um processo nem sempre significa resolver um problema.

Existem sentenças favoráveis que chegam tarde demais. Existem processos vencidos que deixam relações completamente destruídas. E existem acordos aparentemente simples que devolvem paz a uma família inteira. O Direito resolve muita coisa. Mas não resolve tudo.

4. Por trás de todo processo existe uma história que não cabe nos autos.

O processo mostra documentos, datas, provas e versões, mas dificilmente consegue mostrar completamente o medo de uma mãe, a frustração de um pai, a insegurança de uma criança ou tudo aquilo que aconteceu antes de alguém decidir procurar um advogado. Talvez tenha sido essa uma das razões pelas quais o Direito de Família sempre me atravessou de maneira diferente.

5. Nem todo conflito precisa virar processo.

Algumas das melhores soluções que já acompanhei não terminaram com uma sentença. Terminaram com uma conversa difícil, um acordo bem construído e duas pessoas entendendo que continuar brigando custaria mais do que ceder.

6. Saber ouvir é tão importante quanto saber falar.

A faculdade ensina a argumentar, A ADVOCACIA ENSINA A OUVIR. Porque, muitas vezes, antes de descobrir qual ação ajuizar, precisamos entender qual é realmente o problema. E nem sempre são a mesma coisa.

7. A pressa do cliente e o tempo da Justiça raramente caminham juntos.

Quem está sofrendo quer uma resposta para ontem. O processo tem prazos, procedimentos, recursos e uma realidade própria. Aprendi que parte do nosso trabalho é também traduzir esse tempo sem criar falsas expectativas.

8. Existem processos dos quais a gente esquece detalhes. Existem histórias que nunca esquece.

Depois de anos, são muitos nomes, audiências, petições e processos, Mas algumas histórias ficam. Talvez porque tenham sido especialmente difíceis, talvez porque tenham terminado bem ou talvez porque tenham nos lembrado que, antes de sermos profissionais, somos pessoas lidando com outras pessoas.

9. A experiência não faz a gente ter todas as respostas. Faz a gente saber quais perguntas fazer.

Quando comecei, eu achava que precisava saber tudo. Hoje, tenho muito mais tranquilidade para dizer: preciso estudar isso melhor. Talvez amadurecer profissionalmente seja justamente perceber que segurança não é ter resposta imediata para tudo. É saber procurar a resposta certa.

10. Direito é técnica. Advocacia é técnica e humanidade.

Depois de quase dez anos, talvez essa seja a principal lição:

Uma boa petição importa, conhecer a lei importa, estudar jurisprudência importa. Mas entender que aquela ação que ocupa uma pasta no computador representa uma parte enorme da vida de alguém também importa, especialmente no Direito de Família. Porque, quando um casamento termina, quando pais disputam guarda, quando alguém pede alimentos ou quando uma família se rompe, nós não estamos lidando apenas com processos. Estamos lidando com vidas em reorganização.

Hoje, no Dia do Advogado, celebro a profissão com muito mais consciência do que quando comecei. Continuo acreditando na importância de lutar. Só aprendi que a boa advocacia também está em saber quando lutar, como lutar e, principalmente, por quê.

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