A gente escolhe até a flor da festa. Mas casa sem entender o que está assinando…

EU AMO CASAMENTO, amo mesmo. Amo a festa, o vestido, a música, a mesa linda, a escolha das flores, os padrinhos, a entrada, o brinde, a pista cheia, a família reunida. Amo aquela sensação de que, por algumas horas, todo mundo está ali celebrando uma escolha muito bonita: duas pessoas decidiram construir uma vida juntas.

E, para mim, casamento é isso, é parceria, amizade, é escolher alguém para dividir não só os dias incríveis, mas também as fases difíceis, as contas, os medos, os planos que dão certo e os que mudam no meio do caminho, é construir história, é ter com quem comemorar e, principalmente, ter com quem enfrentar.

Eu acho casamento uma coisa linda. Talvez justamente por isso exista uma coisa que, como advogada, sempre me chama atenção. A gente passa meses organizando um casamento, escolhe o local, prova comida, decide decoração, muda a lista de convidados umas quinze vezes, discute se vai ter bem-casado, lembrancinha, chinelo, banda, DJ, bar de drinks, escolhe a música que vai tocar na entrada da noiva com um cuidado quase científico.

Mas chega no cartório e, muitas vezes, escolhe o regime de bens sem entender exatamente o que ele significa. E isso, para mim, é muito curioso. Porque aquela assinatura provavelmente vai ter mais consequências para a vida do casal do que a cor da toalha, a flor do centro de mesa e até o destino da lua de mel Só que ninguém gosta muito de falar disso.

Porque falar de patrimônio antes do casamento parece pouco romântico, falar de dívida parece estranho, perguntar o que acontece com uma empresa parece quase uma falta de confiança. E falar em possibilidade de separação? Deus me livre!!!! Parece que a pessoa está casando já pensando em terminar. Só que não é isso. Conversar antes não é desejar o fim, é entender o começo.

E talvez seja exatamente aí que eu ache que falta alguma coisa no jeito como a gente casa hoje. Porque, para se separar, o advogado aparece, obrigatoriamente. Na hora do divórcio, alguém vai explicar o que é comunicável, o que não é, como funciona a partilha, de quem é a dívida, o que acontece com aquele imóvel, com aquela empresa, com aquele investimento. Aí todo mundo quer entender. E muitas vezes a pergunta que eu escuto é: “Mas eu não sabia que funcionava assim.” Pois é. Talvez devesse saber desde lá de trás. Desde antes do “sim”.

Eu realmente acho que seria muito interessante se o casal tivesse orientação jurídica antes de casar, não para transformar o casamento em contrato empresarial, nem para colocar desconfiança onde existe amor mas para explicar. Explicar de verdade. O que significa comunhão parcial? E comunhão universal? E separação de bens? O que acontece com o patrimônio que cada um já tinha? E com o que construírem juntos? E com herança? E com dívida? E se um abrir uma empresa? E se um parar de trabalhar por alguns anos para cuidar dos filhos?

Essas coisas fazem parte da vida de um casal e fingir que não existem não deixa o casamento mais romântico, só deixa as pessoas menos informadas. E eu acho engraçado porque, no casamento, a gente aceita tranquilamente contratar todo tipo de profissional. Cerimonialista para organizar o dia, fotógrafo para registrar, decorador para deixar bonito, DJ para cuidar da festa, maquiador, cabeleireiro, buffet, assessoria. Mas a ideia de conversar uma hora com um advogado antes de casar parece exagero. E depois, se der errado, o advogado é uma das primeiras ligações. Tem alguma coisa invertida nisso.

Talvez a gente tenha aprendido a procurar o advogado de família somente quando a família já está em crise. Quando, na verdade, Direito de Família também pode ser prevenção. Pode ser conversa, pode ser organização, pode ser duas pessoas sentando juntas e entendendo aquilo que estão começando.

E eu não acho nada pouco romântico nisso, pelo contrário. Para mim, existe maturidade em olhar para a pessoa que você ama e dizer: “Eu quero construir uma vida com você. Então quero que a gente saiba exatamente como essa vida vai funcionar.”

Isso não tira a beleza do casamento, não estraga a festa, não muda a emoção da entrada, não diminui em nada aquele momento em que duas pessoas se olham e dizem “sim”. Só faz com que esse “sim” seja ainda mais consciente. E talvez eu seja suspeita porque amo uma boa festa. Acho que casamento tem que ter tudo aquilo que o casal sonhou, dentro da realidade de cada um. Tem que ter música, tem que ter gente querida, tem que ter abraço, tem que ter foto bonita, tem que ter aquele momento em que você olha em volta e pensa: “meu Deus, está acontecendo.”

Mas, no meio de tanta escolha, talvez falte colocar mais uma na lista. Vestido: escolhido, buffet: escolhido, flores: escolhidas, música: escolhida, regime de bens: escolhido e, principalmente, entendido. Porque casamento é amor, mas também é vida real. E a vida real vem com patrimônio, responsabilidade, trabalho, renúncia, planos, filhos, mudanças e imprevistos. Eu continuo achando casamento uma das decisões mais bonitas que duas pessoas podem tomar.

Casar consciente não diminui o amor, só tira dele a ingenuidade. Porque o amor pode até ser cego, o casamento não deveria ser.

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