A obesidade virou um mercado de atalhos.

A obesidade virou um mercado de atalhos

Nos consultórios, nas academias e principalmente na internet, a obesidade passou a ser tratada como um problema simples, quase mecânico. Uma injeção por semana. Uma dieta “seca-barriga”. Um treino milagroso. Em poucas semanas, o corpo muda. Pelo menos é o que prometem.
A ciência, e experiência médica, porém, conta outra história.
Hoje, enquanto as diretrizes médicas tratam a obesidade como doença crônica, complexa e de longo prazo, o que se vê na prática é a proliferação de protocolos simplificados, vendidos como soluções definitivas.

O conflito entre esses dois mundos o da medicina e o do marketing das indústrias farmacêuticas ajuda a explicar por que o número de pessoas frustradas, adoecidas ou dependentes de tratamentos cresce junto com o uso dessas estratégias.

O que a medicina diz hoje

A obesidade é uma doença crônica, multifatorial e recidivante quando não tratada da forma correta. Essa visão está consolidada em documentos da World Health Organization e, no Brasil, da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica.
Doença crônica não se trata com solução única, nem com intervenções curtas. Exige plano contínuo, acompanhamento e combinação de estratégias. Nenhuma diretriz séria recomenda tratar obesidade com um único recurso. Mas é exatamente o oposto que ganhou espaço fora e dentro do ambiente médico.

A religião da caneta: só medicamentos

O avanço de medicamentos modernos para obesidade e diabetes criou um mercado gigantesco. Na prática, surgiram protocolos baseados quase exclusivamente em injeções para controle do apetite, muitas vezes associadas a “reposição hormonal” vendida como correção metabólica.
A promessa é sedutora: emagrecer sem mexer na rotina, sem lidar com comportamento, traumas, sono, ansiedade ou alimentação. Você provavelmente já foi vítima dessas abordagens.
Sem acompanhamento adequado, surgem riscos: náuseas intensas, vômitos persistentes, diarreia, desidratação, perda excessiva de massa muscular e, em casos mais graves, pancreatite, arritmias secundárias a distúrbios metabólicos e internações, com risco real de morte.
No uso associado ou indiscriminado de hormônios, somam-se perigos como alterações cardiovasculares, trombose, sobrecarga hepática e desregulação hormonal. Além disso, ao não tratar a raiz do problema, cria-se dependência do medicamento e alto risco de reganho de peso quando ele é suspenso.

A religião da dieta: quando restrição vira espetáculo

Outro polo dominante na internet são os protocolos baseados apenas em dieta. Cardápios únicos, jejum extremo, cortes radicais de grupos alimentares e promessas de perda rápida de peso.
Na prática clínica, o resultado é previsível: perda inicial, seguida de exaustão, compulsão e efeito sanfona. Diretrizes modernas já deixaram claro que estratégias altamente restritivas aumentam o risco de recaída, pioram a relação com a comida e comprometem a manutenção do peso no médio prazo.
Mesmo assim, o discurso segue forte porque gera imagens rápidas, antes e depois e sensação de controle. A obesidade, porém, não respeita atalhos.
A religião do exercício: suor sem estratégia
Há protocolos que prometem resolver a obesidade apenas com treino: “emagreça sem dieta”, “30 dias para um novo corpo”. O discurso é simples e sedutor. Exercício físico é essencial e nenhuma diretriz discorda disso. O problema surge quando ele é vendido como solução única. Isoladamente, não sustenta perda de peso, porque não atua sobre a causa do comportamento alimentar nem sobre o contexto em que ele ocorre.
Sem mudança de mentalidade, preparo do corpo e reorganização do ambiente, o exercício vira força bruta: começa com entusiasmo e termina em frustração, dor ou abandono. A atividade física é um pilar fundamental, mas nunca suficiente sozinha. Quando mente, corpo e ambiente não mudam juntos, o esforço aparece, o resultado, não.

O que a medicina realmente recomenda

As diretrizes atuais são objetivas ao listar os componentes do tratamento da obesidade. A abordagem deve combinar intervenção comportamental e psicológica seria, não uma simples sessão de psicologia, mudança estruturada de estilo de vida, plano alimentar individualizado, não dieta, medicamentos quando indicados, cirurgia bariátrica em casos selecionados e acompanhamento de longo prazo.

O que as diretrizes não fazem é dizer por onde começar, nem qual desses elementos deve assumir papel central em cada indivíduo.
Ao transformar a lista de recomendações em uma tentativa de fazer tudo, muitos tratamentos se tornam inviáveis na vida real. O paciente se vê diante de múltiplas exigências, todas corretas do ponto de vista técnico, mas desconectadas de sua realidade do paciente.
Minha experiência mostra que existe um ponto de inflexão não descrito formalmente nas diretrizes, mas decisivo na prática que reorganiza o restante do tratamento. Quando esse ponto é ignorado, as estratégias se acumulam sem sustentação.
Quando ele é corretamente abordado, o plano alimentar passa a fazer sentido, o exercício deixa de ser imposto, o medicamento encontra seu lugar e o acompanhamento se torna possível. Essa é uma leitura clínica de quem lida diariamente com o fracasso de abordagens que tentam fazer tudo, sem tocar no que realmente muda o jogo.

O abismo entre ciência e vitrine
O que se vê hoje é um abismo crescente entre o que a medicina recomenda e o que se vende. Protocolos únicos são mais fáceis de explicar, mais rápidos de mostrar resultados e muito mais rentáveis. Mas não correspondem ao tratamento real de uma doença crônica.
O tratamento da obesidade não fracassa porque o paciente “não se esforçou”. Ele fracassa quando é tratado como projeto de segundo plano.
A ciência, os medicamentos avançaram muito, mas o erro foi transformar o tratamento da obesidade em promessa de milagre. Doenças não perdoam atalhos apenas cobram a conta depois e você sabe disso. Mas a obesidade tem cura.

Dr Rogerio Silva CRM SP 172.346
Cardiologista/Emagrecimento
@drrogeriosilva1
drrogeriosilva.com.br

Jornalista Pedro Ernesto Macedo

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