BlackRock mira US$ 400 bilhões em mercados privados até 2030; o que movimento sinaliza ao investidor brasileiro

Estratégia da maior gestora de ativos do mundo reforça avanço de private equity, crédito privado, infraestrutura e imóveis; para José Roberto Salazar, tendência amplia possibilidades, mas exige conhecimento e análise criteriosa das operações

Uma movimentação da maior gestora de ativos do mundo ajuda a revelar uma mudança importante no mercado global de investimentos. A BlackRock estabeleceu como meta captar US$ 400 bilhões até 2030 para estratégias de mercados privados, incluindo private equity, crédito privado, imóveis e infraestrutura.

A aposta faz parte de uma transformação da própria companhia, historicamente conhecida por sua atuação nos mercados tradicionais de ações, títulos e fundos de índice. A BlackRock também pretende que mercados privados e tecnologia representem 30% ou mais de sua receita até o final da década e projeta praticamente dobrar seu lucro operacional ajustado em relação a 2024.

Por trás dos números está um movimento que interessa também ao investidor brasileiro: grandes gestores internacionais estão ampliando sua atuação para além dos ativos negociados diariamente em bolsas e mercados públicos e colocando os investimentos privados no centro de suas estratégias de crescimento.

Para José Roberto Salazar, especialista em investimentos e sócio-fundador da PR Private Partners, o movimento deve ser observado principalmente pelo que revela sobre a transformação da indústria financeira global.

“Não significa que o investidor deva simplesmente olhar para o que a BlackRock está fazendo e reproduzir essa estratégia. O ponto relevante é outro: uma das maiores gestoras do mundo está dedicando capital, estrutura e planejamento de longo prazo para ampliar sua presença nos mercados privados. Isso mostra que essa classe de ativos passou a ocupar uma posição estratégica na indústria global de investimentos”, explica.

Mercado brasileiro também passa por transformação

No Brasil, alguns indicadores apontam para uma expansão de segmentos relacionados ao crédito privado e aos fundos estruturados.

Dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostram que a indústria brasileira de fundos encerrou 2025 com patrimônio líquido de R$ 10,7 trilhões. No mesmo ano, fundos estruturados tiveram destaque: o número de contas de investidores em FIDCs passou de aproximadamente 172 mil em janeiro para mais de 331 mil em dezembro, crescimento superior a 90%.

O mercado de capitais também registrou volume recorde de ofertas em 2025, alcançando R$ 838,8 bilhões. Já nos cinco primeiros meses de 2026 foram R$ 283 bilhões em ofertas encerradas, alta de 14,1% na comparação com o mesmo período do ano anterior, com destaque para FIDCs, títulos híbridos e ações.

Para José Roberto Salazar, os dados precisam ser analisados dentro de uma transformação mais ampla na maneira como o capital é alocado.

“O investidor brasileiro passou muitos anos acostumado a pensar praticamente apenas em produtos bancários ou ativos negociados no mercado tradicional. Existe um universo de investimentos fora desse ambiente, mas entrar nele exige conhecimento. O fato de o mercado privado estar crescendo não elimina riscos. Pelo contrário: torna ainda mais importante saber avaliar cada operação”, afirma.

O que são mercados privados?

De maneira geral, o mercado privado reúne investimentos que não são negociados da mesma forma que ações ou outros ativos disponíveis em mercados públicos. Nesse universo podem estar operações relacionadas a crédito privado, participação em empresas, projetos imobiliários, infraestrutura e outros ativos.

Uma das características dessas operações é justamente a possibilidade de acesso a estruturas diferentes daquelas normalmente encontradas nas prateleiras tradicionais de bancos e corretoras.

Essa característica, entretanto, também aumenta a responsabilidade do investidor na análise.

“Quando se entra em uma operação privada, não basta olhar uma taxa ou uma expectativa de retorno. É preciso entender de onde vem o resultado econômico daquela operação, quem são as partes envolvidas, quais são as obrigações previstas no contrato, quais garantias existem e em quais situações essas garantias efetivamente poderiam ser executadas”, explica José Roberto Salazar.

Maior possibilidade de retorno não significa ausência de risco

O avanço dos mercados privados também exige atenção para um princípio básico dos investimentos: retorno e risco devem ser analisados conjuntamente.

Segundo José Roberto Salazar, um dos maiores erros é escolher uma operação exclusivamente pela rentabilidade apresentada.

“Uma taxa, isoladamente, diz muito pouco sobre a qualidade de um investimento. Antes de perguntar quanto pode render, o investidor deveria perguntar como aquela operação gera dinheiro, quais são os riscos, o que acontece se o cenário esperado não se concretizar e que proteção existe para o capital investido”, afirma.

Outro cuidado envolve a liquidez. Diferentemente de ativos negociados diariamente, investimentos privados podem exigir que os recursos permaneçam aplicados por períodos determinados ou apresentar condições específicas para saída antecipada.

“Liquidez é uma parte importante da análise. Um investimento pode fazer sentido financeiramente e, ainda assim, ser inadequado para uma pessoa que poderá precisar daquele recurso no curto prazo. Por isso não existe uma boa carteira sem conhecer primeiro a realidade e os objetivos do investidor”, acrescenta.

Due diligence ganha importância

É nesse ponto que aparece uma expressão cada vez mais presente no universo dos mercados privados: due diligence.

Na prática, trata-se de um processo de investigação antes da realização do investimento. A análise pode envolver aspectos financeiros, jurídicos, societários e operacionais, além da avaliação dos responsáveis pelo negócio, das garantias apresentadas e da capacidade de geração de recursos da operação.

Para José Roberto Salazar, essa etapa é indispensável.

“No mercado privado, você precisa investigar. Quem está captando o dinheiro? Para que ele será utilizado? A operação economicamente se sustenta? Existem documentos que comprovam aquilo que está sendo apresentado? Qual é o histórico dos responsáveis? Como estão estruturadas as garantias? São perguntas que precisam ser respondidas antes, e não depois que o dinheiro já foi investido”, destaca.

Ele também ressalta que a existência de uma garantia não significa, por si só, segurança absoluta.

“Não basta alguém dizer que determinada operação possui garantia. É necessário entender qual é essa garantia, qual seu valor real, como ela foi constituída, se existe prioridade de outros credores e de que maneira poderia ser executada em um cenário adverso. É justamente aí que uma análise técnica faz diferença”, explica.

A tendência global não deve ser interpretada como recomendação

O movimento da BlackRock, segundo José Roberto Salazar, não deve ser encarado como uma recomendação automática para aumentar a exposição aos mercados privados.

A estratégia de uma gestora internacional com trilhões de dólares sob administração é diferente das necessidades individuais de cada investidor. Patrimônio, idade, objetivos, necessidade de liquidez, horizonte de investimento e tolerância a riscos precisam fazer parte da decisão.

“A grande mensagem que podemos extrair desse movimento não é ‘invista em mercado privado’. A mensagem é que o universo de investimentos está mudando e que o investidor precisa conhecê-lo melhor. Quanto maior o número de alternativas, maior também precisa ser a capacidade de selecionar aquilo que realmente faz sentido”, diz José Roberto Salazar.

Para ele, o crescimento dos investimentos privados tende ainda a aumentar a importância do acompanhamento especializado.

“Existe uma diferença enorme entre ter acesso a uma oportunidade e saber avaliar uma oportunidade. O trabalho técnico está justamente em separar essas duas coisas. O investidor precisa compreender o que está comprando e por que aquela operação faz sentido dentro do seu patrimônio”, afirma.

Do institucional ao individual

A própria movimentação internacional indica ainda uma tentativa de ampliar gradualmente o acesso aos mercados privados para além dos grandes investidores institucionais. Gestoras globais vêm desenvolvendo estruturas destinadas também aos segmentos de wealth management e investidores individuais que atendam às exigências de cada mercado.

Para José Roberto Salazar, esse processo pode ajudar a mudar também a percepção do brasileiro sobre diversificação.

“Durante muito tempo, mercado privado foi visto como algo extremamente distante da pessoa física. Isso está mudando. Mas democratizar o acesso não pode significar banalizar o risco. Quanto mais esse mercado chegar aos investidores individuais, mais educação financeira, transparência e diligência serão necessárias”, avalia.

A aposta bilionária da BlackRock, portanto, não representa uma garantia sobre o desempenho futuro dessa classe de ativos. Mas funciona como um sinal da dimensão que os mercados privados vêm conquistando dentro da indústria financeira mundial.

Para o investidor brasileiro, a principal consequência pode estar menos em seguir uma tendência e mais em compreender que o universo disponível para diversificação está aumentando — e que novas possibilidades exigem também um novo nível de conhecimento.

“Diversificar não é simplesmente ter muitos investimentos. É combinar ativos que façam sentido para os objetivos daquela pessoa, compreendendo riscos, prazos e características de cada um. O mercado privado pode fazer parte dessa estratégia em determinados casos, mas precisa entrar pela porta da análise, e nunca pela promessa”, conclui José Roberto Salazar.

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