A crescente demanda global por inteligência artificial (IA) e computação em nuvem está se tornando cada vez mais dependente de um recurso essencial: a energia. Data centers, que são fundamentais para essas tecnologias, requerem grandes quantidades de eletricidade, além de um fornecimento estável, previsibilidade de preços e agilidade na expansão. Nesse contexto, o Brasil possui uma oportunidade significativa para se afirmar como um polo estratégico na economia digital global, caso consiga integrar seus recursos renováveis com uma regulação moderna, sistemas de armazenamento em baterias e segurança jurídica.
De acordo com o relatório "Renováveis 24/7: a economia da energia firme solar e eólica", da International Renewable Energy Agency (Agência Internacional de Energia Renovável, Irena), a adoção de sistemas híbridos que combinam energia solar, eólica e baterias se apresenta como uma alternativa viável para fornecer eletricidade de maneira estável, contínua e de alta qualidade. Esses sistemas podem atender a demandas intensivas de energia, como as de data centers, além de setores críticos como saúde e manufatura avançada.
Os dados mostram que o custo nivelado da energia firme proveniente de fontes renováveis com baterias caiu de mais de US$ 100 por megawatt-hora (MWh) em 2020 para uma faixa entre US$ 54 e US$ 82/MWh prevista para 2025. Essa tendência de redução de custos deve continuar, com uma expectativa de diminuição de aproximadamente 30% até 2030 e 40% até 2035, o que reforça a competitividade das soluções renováveis em comparação com os métodos tradicionais de geração de energia.
No Brasil, a Irena modelou exemplos que evidenciam o potencial do país. Em um projeto solar na Bahia, a estimativa é que o custo da energia firme seja de US$ 65/MWh em 2025, com uma projeção de queda para US$ 44/MWh em 2030. Em contrapartida, um projeto eólico no Rio Grande do Norte apresenta uma redução do custo de US$ 88/MWh para US$ 73/MWh no mesmo período. Esses dados revelam não apenas a abundância de recursos renováveis no Brasil, mas também a capacidade de fornecer energia firme e competitiva em regiões estratégicas para a expansão da economia digital.
Com um planejamento adequado, expansão da rede elétrica e um ambiente regulatório favorável, o Brasil pode se estabelecer como uma plataforma significativa para data centers, inteligência artificial e novas cadeias produtivas que demandam energia limpa. A meta não deve ser apenas atrair data centers a qualquer custo, mas sim oferecer uma alternativa que esteja em sintonia com as exigências da nova economia e criar uma infraestrutura que se torne um legado duradouro, com energia competitiva, renovável e que atenda aos prazos exigidos pela transformação digital.
Em um cenário global em que a inteligência artificial pressiona as redes elétricas, as emissões e as metas climáticas, aqueles países que conseguirem fornecer essa infraestrutura terão uma vantagem competitiva. O Brasil, portanto, enfrenta uma oportunidade singular e deve aproveitá-la para deixar de ser um mero espectador e assumir um papel de destaque em uma das transformações econômicas e tecnológicas mais relevantes deste século.