No mês do Dia das Crianças, projeto do Hospital Angelina Caron transforma desenhos e mensagens de pequenos pacientes em uma corrente de acolhimento para outras crianças e suas famílias
Deveria ser proibido criança ficar doente. É um pensamento quase inevitável diante de uma criança em um hospital. A infância parece combinar com brincadeiras, escola, amigos e descobertas, não com exames, cirurgias ou internações. Ainda assim, todos os dias há crianças que precisam trocar, por algum tempo, parte dessa rotina por corredores, quartos e centros cirúrgicos.
Mas quem acompanha a rotina de uma pediatria também conhece um lado menos evidente dessa experiência. Mesmo diante do medo, da ansiedade por um procedimento ou da vontade de voltar para casa, as crianças continuam encontrando espaço para brincar, desenhar e, muitas vezes, olhar para quem está ao lado.
Foi dessa percepção que nasceu, há cerca de dois meses, o Cartas da Esperança, projeto desenvolvido na Pediatria do Hospital Angelina Caron, em Campina Grande do Sul, na Região Metropolitana de Curitiba.
A dinâmica é simples. Às segundas-feiras, crianças que passarão por procedimentos cirúrgicos recebem cartas e desenhos produzidos por outros pacientes pediátricos. Às quartas-feiras, aquelas que estão recebendo alta ganham papel e canetas e são convidadas a fazer o mesmo: escrever ou desenhar para a próxima criança que chegar. Quem recebe hoje pode ser quem escreve amanhã.
Não há roteiro para as mensagens. O destinatário também é desconhecido. Pode ser uma criança que ficará pouco tempo no hospital ou alguém que terá uma jornada mais longa pela frente. O que existe em comum é a experiência de estar em um ambiente que, especialmente na infância, pode provocar insegurança e medo.
A proposta cria uma passagem de cuidado. Uma criança que chegou ao hospital com suas próprias apreensões, ao ir embora, deixa algo para alguém que ainda nem conhece. “O mais bonito é que não precisamos dizer às crianças o que elas devem escrever ou desenhar. Cada uma encontra a sua maneira de transmitir carinho para quem vai chegar depois. Muitas acabaram de passar por uma cirurgia, também sentiram medo e estiveram em um ambiente diferente da rotina delas, mas, na hora de ir embora, conseguem olhar para outra criança e deixar uma mensagem positiva. É uma troca muito genuína”, afirma Dra. Caroline Caron Fukushima, Coordenadora do Serviço de Pediatria do Hospital Angelina Caron.
Quando uma criança acolhe outra
Outubro costuma ser marcado por festas, presentes e atividades dedicadas ao Dia das Crianças. Dentro dos hospitais, a infância continua existindo, mas precisa dividir espaço com uma realidade que nenhuma família gostaria de enfrentar.
E são muitas as crianças que, em algum momento, passam por uma experiência hospitalar. Dados da Secretaria de Estado da Saúde do Paraná mostram que, somente por meio do programa Opera Paraná, foram realizados 113.458 procedimentos cirúrgicos em crianças de zero a 12 anos entre 2022 e julho de 2025. Nos primeiros sete meses de 2025, foram 24.308 procedimentos pediátricos, média de 3.472 por mês.
Os números não correspondem aos atendimentos do Hospital Angelina Caron, mas ajudam a dimensionar uma realidade que raramente aparece quando se fala sobre o mês das crianças: milhares delas entram e saem de centros cirúrgicos e hospitais no Paraná. Para esses pacientes, o cuidado começa na assistência médica, mas a experiência hospitalar não se resume ao procedimento.
Uma carta não elimina o medo de uma cirurgia. Um desenho tampouco substitui medicamentos, tecnologia ou assistência especializada. O que esses gestos podem fazer é tornar um ambiente desconhecido um pouco mais próximo e mostrar à criança que alguém esteve ali antes dela e pensou em sua chegada. Há algo especialmente simbólico quando essa mensagem vem de outra criança. Ela não fala como médico, enfermeiro, pai ou mãe. Escreve a partir de uma experiência parecida, com as palavras, os desenhos e o olhar próprios da infância.
O cuidado chega também às famílias
Quando uma criança precisa ser internada ou passar por uma cirurgia, a rotina de toda a família muda. Pais e responsáveis acompanham exames, esperam por procedimentos e convivem com suas próprias apreensões enquanto tentam transmitir tranquilidade. Por isso, embora as Cartas da Esperança sejam produzidas e entregues às crianças, o gesto não fica restrito a elas.
Uma mensagem deixada por quem já passou por aquele ambiente também pode representar um sinal de acolhimento para a família que está chegando. Há outra criança que fez aquele caminho, recebeu cuidado e voltou para casa. “Quando recebemos uma criança, recebemos também uma família que está vivendo aquele momento com ela. Existe a preocupação com o procedimento, a espera e, muitas vezes, a ansiedade diante de uma situação nova. O cuidado hospitalar precisa considerar essa dimensão. As cartas são um gesto simples, mas carregam uma mensagem importante: outra criança já esteve aqui, passou por essa experiência e deixou algo bom para quem viria depois. Isso também acolhe os pais e responsáveis”, explica Dra. Caroline Caron Fukushima, Coordenadora do Serviço de Pediatria do Hospital Angelina Caron.
Uma corrente que continua depois da alta
Talvez um dos aspectos mais especiais do Cartas da Esperança esteja justamente no momento da saída. A criança que recebeu cuidado passa a ocupar outro lugar. Ao pegar papel e canetas para escrever ao próximo paciente, deixa de ser apenas destinatária e transforma parte da própria experiência em acolhimento.
Não é preciso conhecer quem receberá a mensagem. Uma criança desenha, outra escreve algumas palavras. A carta fica para quem ainda vai chegar. E assim o projeto se renova.
No mês em que o calendário convida os adultos a olhar com mais atenção para a infância, as cartas fazem também o movimento contrário. São as crianças, inclusive aquelas que acabaram de atravessar dias difíceis, que lembram aos adultos da simplicidade de olhar para o outro. Talvez seja essa uma das coisas que não deveríamos deixar a infância levar embora: a capacidade de oferecer cuidado sem precisar saber quem estará do outro lado.

Fonte: Assessoria de Imprensa. / Fotos: Danielle Sommer.