Especialista aponta que medo da substituição e falta de ambiente seguro para experimentação ainda travam a implementação real da inteligência artificial nas organizações
A adoção de inteligência artificial nas empresas brasileiras depende mais de cultura organizacional e confiança das equipes do que da tecnologia em si. Segundo o relatório Future of Jobs 2023, do Fórum Econômico Mundial, cerca de 23% dos empregos devem sofrer transformação até 2027 devido à automação e à inteligência artificial. No Brasil, levantamento da PwC aponta que até 30% das atividades de trabalho podem ser automatizadas nas próximas décadas. O cenário amplia o debate sobre o impacto da tecnologia no mercado de trabalho e ajuda a explicar a resistência cultural que muitas organizações enfrentam ao tentar implementar projetos de IA.
Na avaliação de especialistas, muitas iniciativas falham não por limitações técnicas, mas por barreiras humanas dentro das empresas. Quando a inteligência artificial é apresentada como uma decisão “de cima para baixo” ou como ferramenta de controle, equipes tendem a rejeitar o uso ou evitar a adoção real da tecnologia. “O que vemos nas empresas é o chamado ‘silêncio tecnológico’. O colaborador até diz que usa a ferramenta, mas continua executando processos manuais por receio de perder relevância ou autonomia no trabalho”, explica Marcello Alvarenga, CFO & Founder da StaryaAI, startup brasileira especializada em inteligência artificial.
Para o especialista, o sucesso da inteligência artificial está diretamente ligado à construção de confiança e ao preparo das equipes para trabalhar com novas ferramentas. “A inteligência artificial não substitui a cultura. Quando o profissional entende que a tecnologia está ali para apoiar — e não para fiscalizar — a adoção acontece de forma natural. O erro mais comum é investir no software e esquecer as pessoas”, afirma.
Uma das estratégias utilizadas por empresas para reduzir resistências é a criação de ambientes de experimentação, conhecidos como sandbox. Nesses espaços controlados, equipes podem testar agentes de IA em fluxos administrativos ou processos internos com margem para erro e aprendizado. “A experimentação reduz a percepção de risco e ajuda as equipes a entender o valor da tecnologia antes da aplicação em áreas mais sensíveis, como atendimento ao cliente ou jornadas de pacientes no setor de saúde”, diz Alvarenga.
Segundo ele, transparência sobre o papel da inteligência artificial também é um fator decisivo para diminuir o chamado “medo do robô”. Quando as empresas explicam que a tecnologia assumirá tarefas burocráticas — como triagem de informações, organização de dados ou agendamentos — e não atividades estratégicas ou humanas, a percepção entre colaboradores tende a mudar. “Nesse contexto, treinamentos voltados ao letramento em IA e capacitações no uso de ferramentas digitais, como engenharia de prompts para profissionais não técnicos, ajudam a transformar receio em curiosidade e inovação dentro das equipes”, ressalta o especialista.
Empresas que conseguem integrar a inteligência artificial ao cotidiano do trabalho costumam incorporar a tecnologia diretamente aos fluxos operacionais e medir seu impacto na rotina das pessoas. Já organizações que tratam a IA apenas como experimento isolado tendem a não alcançar ganhos consistentes. “A diferença está na intencionalidade. A IA precisa resolver um problema real de negócio e melhorar a experiência de trabalho das pessoas. Sem isso, a tecnologia vira apenas mais uma ferramenta que ninguém usa”, conclui Alvarenga.