Como o home office mudou o mercado imobiliário e a procura por casas à venda nos últimos anos

(Créditos: NickyLloyd / iStock)

Com a consolidação do trabalho remoto, famílias passaram a priorizar espaço, privacidade e qualidade de vida na hora de escolher um imóvel

A procura por uma casa à venda ganhou novos contornos nos últimos anos. Se, antes, a localização próxima ao trabalho era um dos principais fatores na escolha de um imóvel, a expansão do home office alterou essa lógica. Agora, a casa passou a concentrar atividades que antes aconteciam em diferentes espaços, reunindo trabalho, estudos, lazer e convivência familiar em um único ambiente.

A transformação começou durante a pandemia de Covid-19, quando milhões de brasileiros tiveram de migrar para o trabalho remoto durante a quarentena. Mesmo após o fim das restrições sanitárias, parte das empresas manteve modelos híbridos ou totalmente remotos, consolidando mudanças nos hábitos de moradia. Segundo pesquisa encomendada pela Loft Analytics, em 2022, 28% dos brasileiros se mudaram durante a pandemia. Entre os principais motivos apontados, estavam a busca por mais espaço e a adaptação da residência às novas rotinas de trabalho.

Esse novo contexto teve reflexos diretos no mercado imobiliário. Características como metragem, divisão dos ambientes e disponibilidade de áreas externas ganharam relevância para compradores que passaram a permanecer mais tempo dentro de casa. Ao mesmo tempo, a necessidade de estar próximo ao escritório perdeu parte de sua importância, abrindo espaço para novas escolhas de localização.

Casa à venda: busca por mais espaço e privacidade

Uma das mudanças mais evidentes foi a valorização de imóveis maiores. Um levantamento realizado pela Loft, em 2020, mostrou que 45% dos clientes passaram a considerar apartamentos maiores após o início da pandemia, e, entre aqueles que buscavam ampliar o espaço, 70% afirmaram desejar um ambiente reservado para o trabalho remoto.

A procura por cômodos mais definidos também cresceu. A pesquisa “A influência do coronavírus no mercado imobiliário brasileiro”, realizada pelo Grupo ZAP, em 2020, identificou que 67% das pessoas interessadas em mudar de imóvel consideravam importante ou muito importante que os ambientes fossem bem delimitados.

E a tendência continuou nos anos seguintes. Levantamento do DataZAP, produzido pelo Grupo OLX, em 2024, mostrou que casas de rua ou condomínio concentravam 49% das buscas por imóveis, enquanto apartamentos respondiam por 38%. O resultado foi associado à procura por mais espaço, privacidade e ambientes adequados para o trabalho remoto.

Toda essa mudança está ligada à rotina criada pelo home office. Em muitas famílias, mais de uma pessoa passou a trabalhar remotamente ao mesmo tempo. Reuniões virtuais, chamadas de vídeo e atividades que exigem concentração tornaram mais evidente a necessidade de espaços separados.

Além da produtividade, a privacidade ganhou peso na decisão de compra. Ambientes integrados, que haviam se popularizado nos grandes centros urbanos, passaram a dividir espaço com uma demanda crescente por imóveis capazes de acomodar diferentes atividades sem sobreposição constante.

Com isso, quartos extras, escritórios, áreas externas e plantas com melhor distribuição interna passaram a ser vistos como diferenciais por parte dos compradores.

O avanço da procura por imóveis fora dos grandes centros

O crescimento do trabalho remoto também alterou a relação entre moradia e localização. Sem a necessidade de enfrentar deslocamentos diários, muitas famílias passaram a considerar bairros mais afastados, cidades vizinhas e municípios do interior.

Nesse cenário, a busca por uma casa à venda deixou de se concentrar exclusivamente nas regiões mais próximas dos polos corporativos. Dados divulgados pelo QuintoAndar, em 2021, mostraram que a relevância de morar perto do trabalho caiu 42,5% entre os entrevistados, indicando uma mudança nas prioridades dos compradores.

A procura por imóveis maiores ajudou a impulsionar esse movimento. Em regiões fora dos grandes centros, imóveis maiores costumam apresentar valores mais competitivos, quando comparados às áreas centrais das capitais, o que permite que famílias encontrem casas com mais quartos, quintal ou espaço para escritório, sem ampliar proporcionalmente os custos.

O fenômeno também foi observado em diferentes mercados. Dados do Sindicato da Habitação do Rio de Janeiro (Secovi Rio), divulgados em 2021, apontaram aquecimento das vendas residenciais em regiões menos adensadas da cidade. Segundo a entidade, a procura por imóveis maiores e a adoção do home office estiveram entre os fatores associados ao aumento da demanda.

Para além de apenas uma mudança temporária provocada pela pandemia, o movimento reflete uma reavaliação da forma como as pessoas se relacionam com a moradia. A possibilidade de trabalhar remotamente ampliou o peso de fatores como espaço, privacidade e qualidade de vida na decisão de compra.

Uma mudança no estilo de vida

Em suma, o home office não transformou apenas a rotina profissional, mas toda a experiência de passar mais tempo dentro de casa, o que também alterou a forma como muitos brasileiros avaliam um imóvel. 

Ao mesmo tempo, a redução da dependência dos deslocamentos diários ampliou o interesse por regiões fora dos grandes centros urbanos. Assim, o mercado imobiliário passou a responder a demandas que vão além da localização tradicional, refletindo mudanças que continuam influenciando o comportamento dos compradores mesmo anos após o auge da pandemia.

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