Descoberta no Malaui desafia crenças sobre práticas funerárias de caçadores-coletores da Idade da Pedra
A cremação mais antiga na África, datada de 9,5 mil anos, revela um ritual funerário sofisticado entre caçadores-coletores no Malaui, indicando práticas sociais complexas.
Uma descoberta que reescreve os rituais funerários na África
Em 2026, cientistas das universidades Yale, do Estado de Nova Iorque e de Oklahoma revelaram uma descoberta arqueológica extraordinária no norte do Malaui: a cremação mais antiga conhecida na África, datada de aproximadamente 9,5 mil anos. Este achado não apenas é o exemplo mais antigo de cremação de um adulto em pira funerária no mundo, como também desafia noções tradicionais sobre o tratamento dos mortos entre sociedades de caçadores-coletores da Idade da Pedra.
O sítio arqueológico Hora 1 e a pira funerária
As escavações no sítio conhecido como Hora 1 revelaram uma camada espessa de cinzas e fragmentos ósseos carbonizados do tamanho aproximado de uma cama queen size. O achado principal foi um cotovelo humano, queimado e fraturado, pertencente a uma única pessoa que foi cremada logo após a morte. A análise bioarqueológica indica que era uma mulher adulta, de estatura pequena, fisicamente ativa e com sinais de infecção óssea parcialmente curada.
Processo ritualístico e técnicas empregadas
A cremação envolveu um fogo intenso, capaz de atingir temperaturas acima de 540 graus Celsius, que consumiu grande parte do corpo. Sob microscópio, foram identificadas incisões feitas com ferramentas de pedra, utilizadas provavelmente para remover a carne durante o processo, evidenciando cuidado e planejamento no ritual. Além disso, a presença de fragmentos de ferramentas na pira indica que os participantes manipularam o fogo e os restos de forma intencional.
Ausência do crânio e significado cultural
Notavelmente, os pesquisadores não encontraram vestígios do crânio ou dentes, partes normalmente preservadas em cremações. Essa ausência sugere que a cabeça pode ter sido removida antes ou durante o ritual, indicando um significado simbólico ou cultural específico. A complexidade e o esforço coletivo para manter a pira acesa por horas ou dias apontam para um evento social de grande importância para a comunidade.
Uso continuado do local e implicações sociais
O local da pira funerária continuou a ser usado para acender fogueiras por vários séculos após o evento principal, evidenciado por camadas de cinzas sobrepostas. Isso reforça a ideia de que o sítio mantinha um papel central nas práticas sociais e rituais da comunidade. A distinção no tratamento funerário dessa mulher em relação a outros enterros simples do sítio sugere que papéis sociais diferenciados já existiam entre esses grupos de caçadores-coletores.
Impacto da descoberta na compreensão da pré-história africana
Este achado traz um novo olhar sobre a complexidade cultural dos povos da Idade da Pedra na África. Ele demonstra que, mesmo em sociedades consideradas simples baseadas na caça e coleta, existiam rituais elaborados e uma organização social capaz de desenvolver cerimônias complexas. A cremação intencional com pira nos força a reconsiderar as interpretações sobre as práticas mortuárias e a vida social desses grupos antigos.
Perspectivas para futuras pesquisas
Novas escavações e análises na região prometem ampliar o entendimento sobre os motivos e os significados por trás dessa cremação singular, bem como sobre as práticas culturais dos antigos habitantes do Malaui. Questões como a identidade social da mulher cremado e a possível existência de crenças relacionadas à vida após a morte serão foco dos estudos futuros.
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Imagem: Fogueira representando cremação antiga. Foto: Frepik
Fonte: www.metropoles.com
Fonte: m de fogueira – Metrópoles – Foto: Frepik