Em um cenário político cada vez mais digitalizado, a antiga figura do marqueteiro todo-poderoso perde espaço para uma nova dinâmica de poder, onde a inteligência de dados se torna o ativo mais valioso. Thiago Branco, especialista em marketing político, analisa quem realmente comanda as estratégias vitoriosas hoje.
Uma questão central assombra os bastidores de qualquer campanha eleitoral moderna: quem detém o poder de decisão? Seria o candidato, com sua visão e carisma? O marqueteiro, com sua experiência em comunicação de massa? Ou o estrategista digital, que domina os algoritmos e o comportamento online? Em recente análise, Thiago Branco, uma das maiores referências em marketing político do Brasil, desmistifica essa estrutura e aponta para uma nova realidade: o sucesso eleitoral não pertence a um indivíduo, mas a um ecossistema colaborativo guiado por dados.
“Numa campanha que realmente tem chance de vitória organizada, nenhum dos três manda sozinho. Na verdade, é um conjunto dos três. O que a gente costuma falar é que, na campanha, o candidato não manda nada, ele só obedece”, afirma Branco.
Essa declaração desafia a percepção tradicional de que o candidato é a força motriz por trás de todas as decisões. Segundo o especialista, o papel do político em uma estrutura profissionalizada é executar uma estratégia meticulosamente planejada, fruto da sinergia entre diferentes áreas de expertise. A era do “eu acho” foi substituída pela era do “os dados mostram”.
A Tríade de Poder na Política Digital
A campanha vitoriosa contemporânea se apoia em uma parceria indissolúvel entre o marketing tradicional e a estratégia digital. O marqueteiro, com sua compreensão da narrativa e do sentimento do eleitor, e o estrategista de dados, com sua capacidade de microsegmentar e prever tendências, precisam operar em total harmonia. “O ideal é que o marqueteiro e o estrategista digital trabalhem lado a lado, trocando informação, alinhando estratégia. Porque senão vira um cabo de guerra dentro da campanha, e o maior prejudicado acaba sendo o candidato”, explica Thiago Branco.
Essa colaboração evita conflitos internos e garante que a comunicação seja coesa, personalizada e, acima de tudo, eficiente. A seguir, uma comparação entre o modelo antigo e o novo modelo de gestão de campanhas:
|
Característica
|
Modelo Antigo de Campanha
|
Modelo Moderno de Campanha
|
|
Tomada de Decisão
|
Centralizada no candidato ou marqueteiro
|
Baseada em dados e insights da equipe
|
|
Estratégia
|
Intuitiva, baseada em experiência passada
|
Data-driven, com testes e otimização contínua
|
|
Comunicação
|
Mensagem única para massa
|
Personalizada e segmentada por público
|
|
Recurso Principal
|
Orçamento financeiro (dinheiro)
|
Inteligência de dados
|
|
Equipe
|
Hierárquica e com silos
|
Colaborativa e integrada
|
Dados: O Petróleo das Eleições
A afirmação mais contundente de Branco diz respeito ao valor dos recursos em uma eleição. Quando questionado sobre o que levará à derrota no futuro — a falta de dinheiro ou a falta de dados —, sua resposta é categórica: “Quem não tiver dados. Dados hoje valem muito mais do que dinheiro, com certeza.”
Essa perspectiva é corroborada por tendências globais em marketing político. O uso de Big Data permite identificar perfis de eleitores, antecipar movimentos da opinião pública e customizar o diálogo em uma escala sem precedentes . Campanhas milionárias já foram derrotadas por estratégias mais inteligentes e menos dispendiosas, que souberam usar a análise de dados para otimizar cada centavo investido.
“Eu conheço muitas campanhas que gastaram fortunas de mais de sete dígitos e não ganharam a eleição, e perderam para muita gente que gastou muito menos, com mais inteligência, estratégia e dados”, relembra o especialista.
O Papel da Inteligência Artificial e o Fator Humano
Com a ascensão da Inteligência Artificial (IA), surge o debate sobre a automação da estratégia política. No entanto, Thiago Branco alerta para os riscos de uma dependência cega da tecnologia. Para ele, a IA é uma ferramenta poderosa, mas que não substitui o discernimento e a sensibilidade de um bom profissional.
“Seria um grande erro, porque o ideal é que você qualifique a equipe. O assessor tem um papel muito importante, ele tem aquele feeling de trabalhar. Nenhuma IA vai substituir o bom assessor”, pontua. A visão correta é capacitar as equipes para que utilizem a IA como um potencializador de sua própria expertise, combinando a precisão dos algoritmos com a experiência humana para interpretar o contexto e o sentimento do eleitorado.
A campanha política moderna, portanto, é uma orquestra complexa. O sucesso não depende de um único maestro, mas da harmonia entre músicos talentosos que tocam a mesma partitura, uma partitura escrita com a tinta dos dados. A análise de Thiago Branco serve como um guia essencial para candidatos, partidos e profissionais que desejam não apenas competir, mas vencer nas eleições do século XXI.
Ver essa foto no Instagram