Desinformação ainda é principal barreira para avanço da cannabis medicinal no Brasil

Mesmo com crescimento no número de pacientes e respaldo científico, preconceito persiste e dificulta acesso ao tratamento

O uso de medicamentos à base de cannabis tem avançado de forma consistente no Brasil, impulsionado por evidências científicas e pela demanda de pacientes. Apesar disso, o preconceito ainda é um dos principais obstáculos. A associação equivocada entre uso medicinal e recreativo segue como fator limitante, dificultando a aceitação social e o acesso a tratamentos regulamentados.

Dados do anuário da Kaya Mind, de 2025, mostram que o país já soma 873 mil pessoas em tratamento com cannabis medicinal. O crescimento ocorre de forma contínua ao longo dos anos. Atualmente, existem 315 associações provedoras, das quais 47 obtiveram autorização judicial para o cultivo, totalizando 27 hectares plantados. O setor também movimentou R$ 971 milhões em 2025, alta de 8,4% em relação ao ano anterior.

Na prática clínica, o canabidiol (CBD), um dos principais compostos da cannabis, tem sido utilizado por seu potencial terapêutico. A substância atua como moduladora de processos inflamatórios e participa de mecanismos envolvidos no controle da dor, do sono e do humor. “O CBD não altera a percepção nem provoca efeitos psicoativos. Ele funciona como um regulador fisiológico, com efeito progressivo e perfil de segurança favorável”, destaca o médico Adam de Lima Alborta.

O especialista lembra que é fundamental diferenciar o uso medicinal do recreativo. Enquanto o segundo busca efeitos psicoativos associados ao THC, o uso clínico envolve concentração padronizada, controle de dose e acompanhamento profissional. “São contextos completamente distintos. No cenário medicinal, há previsibilidade farmacológica e indicação clínica precisa”, explica.

As evidências científicas mais consolidadas apontam eficácia no tratamento de epilepsias refratárias, especialmente em síndromes infantis. “Há também resultados consistentes em dor crônica, espasticidade, ansiedade e distúrbios do sono, embora alguns ainda apresentem variações nos estudos”, ressalta Adam. Segundo o especialista, pacientes que não responderam bem a terapias convencionais tendem a se beneficiar como alternativa ou complemento terapêutico.

Mesmo com a regulamentação vigente, que permite a prescrição médica e a importação ou compra em farmácias autorizadas mediante controle sanitário, o acesso ainda enfrenta desafios. Desde 2015, ao menos R$ 377,7 milhões foram destinados ao fornecimento público desses produtos, e 85% dos municípios brasileiros já registraram pacientes tratados com cannabis. Ainda assim, apenas cerca de 2,7 médicos para cada 10 mil pacientes prescrevem esses medicamentos, e entre dentistas a adesão é de apenas 0,2%.

Para o médico, grande parte da resistência vem da desinformação disseminada principalmente na internet. “Há uma tendência de generalizar: ou tratam como solução universal ou descartam completamente por associação ideológica. Outro erro é a busca por ‘medicalizar’ o uso recreativo, mas, na prática, não existe prescrição para essa finalidade. Cannabis medicinal exige critério e individualização; não pode ser atalho comercial”, afirma. Adam ainda reforça que a informação baseada em dados e experiência clínica é o principal caminho para reduzir o estigma. “Quando o debate se apoia em evidências e resultados reais, ele amadurece. O estigma tende a diminuir à medida que os desfechos terapêuticos são apresentados com responsabilidade”, conclui.

 

PUBLICIDADE

VIDEOS

Relacionadas: