Dados de mercado indicam avanço do uso de stablecoins por empresas e investidores brasileiros em cenário de volatilidade econômica e alta nos custos de energia

O aumento da volatilidade cambial e da pressão inflacionária no Brasil tem ampliado a busca por ativos dolarizados. Dados recentes da Receita Federal mostram crescimento expressivo das operações com USDT (Tether), stablecoin pareada ao dólar, utilizada por empresas e investidores como alternativa de proteção patrimonial e operacional. O movimento ganhou força em meio à escalada dos custos globais de energia após tensões logísticas no Estreito de Ormuz, que impactaram o preço internacional do petróleo e pressionaram cadeias de transporte e alimentação no Brasil.
Nesse cenário, empresas expostas ao comércio exterior passaram a buscar instrumentos de previsibilidade cambial e liquidez imediata. Relatórios baseados em dados disponíveis da Receita Federal apontam que o volume de operações com USDT já supera o do Bitcoin no Brasil em aproximadamente quatro vezes, evidenciando uma mudança no perfil de utilização dos criptoativos no país. A análise também mostra aumento relevante da participação de empresas nas operações com stablecoins, reforçando o uso corporativo para gestão de caixa e pagamentos internacionais.
Segundo levantamento sobre operações com USDT no Brasil, o volume total negociado ultrapassou R$ 271 bilhões no período analisado, com crescimento exponencial tanto no valor movimentado quanto na quantidade de operações realizadas. O pico mensal registrado superou R$ 32 bilhões em negociações. Além da pressão cambial, o cenário inflacionário também voltou a impulsionar fenômenos como a “shrinkflation”, prática de redução do tamanho de produtos sem alteração nominal de preço. A combinação entre inflação persistente, instabilidade geopolítica e oscilação do real ampliou a procura por ativos atrelados ao dólar.
Para Cleverson Pereira, head educacional da OnilX, o avanço das stablecoins representa uma mudança estrutural no comportamento financeiro de empresas e investidores brasileiros. “O mercado passou a olhar para o USDT menos como ativo especulativo e mais como instrumento de proteção cambial e eficiência operacional. Em momentos de estresse econômico, a busca por previsibilidade aumenta significativamente”, afirma Pereira. Ainda segundo o executivo, o crescimento das operações envolvendo empresas indica amadurecimento do mercado. “Há um movimento claro de companhias utilizando stablecoins para pagamentos internacionais, proteção de margem e redução de custos operacionais ligados ao câmbio tradicional”, explica.
Na avaliação do especialista, a tendência reflete uma busca crescente por mecanismos alternativos de dolarização e os dados de mercado reforçam esse avanço corporativo. O número de CNPJs envolvidos em operações com criptoativos apresentou crescimento relevante ao longo dos últimos anos, acompanhando a expansão do volume financeiro negociado. “Nesse contexto, o USDT passou a ser utilizado não apenas como instrumento de reserva de valor, mas também como ferramenta operacional para dolarização rápida e pagamentos internacionais. A facilidade de acesso, a liquidez e a agilidade das transações estão entre os fatores que explicam o crescimento da adoção no país”, finaliza.
Além do uso empresarial, investidores individuais também passaram a utilizar stablecoins como estratégia de preservação de valor em períodos de desvalorização do real e instabilidade econômica.
- Dicas para proteção patrimonial em cenários de volatilidade
- Avaliar a exposição cambial da carteira e diversificar ativos;
- Utilizar stablecoins apenas em plataformas com liquidez e estrutura confiáveis;
- Evitar concentração excessiva em um único ativo;
- Monitorar indicadores macroeconômicos e geopolíticos;
- Estruturar estratégias de hedge alinhadas ao fluxo financeiro da empresa;
- Buscar orientação especializada antes de operar ativos digitais.