Emprego em alta, risco oculto: o que os números não contam sobre carreira e inteligência artificial

*Luiz Carlos Borges da Silveira Filho

O Brasil encerrou 2025 com a taxa média anual de desocupação de 5,6% e rendimento médio de R$ 3.613, melhores números da série histórica, registrados desde 2012. Os números são positivos e não devem ser ignorados. Mas, como costumo dizer, número sem contexto pode virar uma história bonita demais — e, no mercado de trabalho, histórias bonitas demais costumam ser perigosas.

Quando analisamos a taxa de desemprego, é preciso entender o que ela não mostra. Hoje, apenas cerca de 59% das pessoas em idade de trabalhar estão efetivamente ocupadas. A metodologia considera empregado quem trabalhou ao menos uma hora na semana de referência e mede o desemprego apenas entre quem procurou vaga recentemente. Isso permite que o país registre desemprego baixo enquanto cresce o contingente de pessoas subutilizadas, em ocupações intermitentes, informais ou abaixo do seu potencial profissional.

Esse descompasso ajuda a explicar por que tantos trabalhadores sentem que os indicadores melhoram, mas a vida real não acompanha. A estatística melhora, mas a renda, a estabilidade e a perspectiva de crescimento seguem pressionadas. Ao falar de transição de carreira, costumo chamar atenção para um ponto que passa despercebido: o maior risco hoje não está apenas em quem está fora do mercado, mas em quem está no meio dele. Gosto de dividir a força de trabalho em três blocos. Cerca de 15% têm baixíssima empregabilidade. Outros 15% são altamente qualificados, executivos ou empresários, com maior mobilidade. Os 70% restantes estão no meio, entre funções básicas e cargos de média gerência. É exatamente aí que o alerta precisa ser mais alto.

A razão é clara: a inteligência artificial não é uma moda, é um mecanismo de substituição de tarefas. Tudo o que é repetitivo, padronizado e previsível tende a ser automatizado. Pesquisas indicam que até 60% ou 70% das atividades exercidas hoje podem ser substituídas. A inovação costuma avançar lentamente, até o dia em que acontece de forma abrupta. Quem não se preparou antes sente o impacto de uma vez. Diante disso, a qualificação deixa de ser um adorno no currículo e passa a ser uma mudança de faixa. Não se trata de acumular diplomas genéricos.

Mesmo graduação e pós-graduação básica podem não ser suficientes se não houver formação específica, aprofundada e alinhada a competências que a inteligência artificial não executa com facilidade. O objetivo é simples: tornar-se menos substituível. Há também um choque evidente entre gerações. Durante muito tempo, estabilidade, casa, carro e emprego eram sinônimos de sucesso. Hoje, vejo jovens pressionados por uma narrativa de enriquecimento rápido e consumo excessivo, amplificada pelas redes sociais. O problema é que essa expectativa não corresponde à realidade da maioria das pessoas, o que gera frustração crônica.

Nesse ambiente, o “caminho fácil” vende mais do que o caminho consistente. Cursos que prometem riqueza rápida competem diretamente com a educação formal. Mas a estatística é implacável: a chance real de alguém ficar milionário seguindo essas promessas é mínima. A educação tradicional é mais lenta, exige esforço e começa, muitas vezes, com salários baixos. Ainda assim, continua sendo o percurso mais provável para crescimento sustentável.

*Luiz Carlos Borges da Silveira Filho é presidente da American Global Tech University (AGTU), instituição criada para democratizar o acesso ao ensino internacional oferecendo programas de mestrado em português, espanhol e inglês.

 

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